Em entrevista concedida à Assessoria do Instituto Safeweb, o engenheiro eletricista Diogo da Cruz Gonçalves analisou como hospitais podem transformar projetos de eficiência e transição energética em iniciativas com potencial de geração de créditos de carbono. Segundo ele, dois pontos concentram emissões relevantes nesse ambiente: a produção de calor para água quente sanitária e o acionamento de geradores a diesel. A substituição de combustíveis fósseis e a adoção de soluções mais eficientes podem produzir reduções mensuráveis e verificáveis, condição essencial para que um projeto avance em direção à certificação de créditos.
Na prática, Diogo ressalta que o processo começa antes da tecnologia: começa na qualidade da informação. O hospital precisa documentar de forma consistente o consumo de combustíveis de caldeiras e geradores, construir uma linha de base confiável, instalar medições contínuas e manter registros capazes de demonstrar o desempenho antes e depois das medidas de eficiência. Somente com essa rastreabilidade a redução de gases de efeito estufa pode ser submetida à verificação por auditoria independente e, quando confirmada, dar origem a créditos registrados e passíveis de comercialização no mercado voluntário. Para ele, a possibilidade econômica existe, mas exige a mesma seriedade dedicada a qualquer outro investimento, com dados organizados, metas e acompanhamento permanente.
A formação e a experiência profissional de Diogo ajudam a dimensionar a importância desse trabalho técnico. Graduado em Engenharia Elétrica, com ênfase em Energia, pela Universidade de São Paulo (USP), e mestrando em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), atua desde 2026 na Safecarbon como revisor técnico e responsável pela formação de equipes de validação e verificação de projetos de carbono nos escopos de energia, em empresa acreditada pela ONU-UNFCCC. Sua trajetória inclui ainda assessoria na implementação de sistema fotovoltaico grid zero de 1,9 MWp, estudos de eficiência energética industrial, liderança de projetos de geração fotovoltaica, armazenamento de energia e manutenção elétrica. É nessa interface entre engenharia, medição e mercado de carbono que seu trabalho ganha relevância: converter metas ambientais em reduções tecnicamente demonstráveis, auditáveis e capazes de sustentar decisões empresariais.
A lógica apresentada para hospitais, segundo o engenheiro, pode ser aplicada a diferentes atividades econômicas, desde que cada projeto seja desenhado a partir da principal fonte de emissão de cada setor. Em supermercados, ele aponta a refrigeração; em hotéis, climatização e água quente; na indústria, o calor de processo. Ao tratar dos segmentos com maior potencial, Diogo cita papel e celulose, ferro e aço, cimento, exploração e produção de petróleo e gás e transporte aéreo, relacionando esse movimento às novas exigências de reporte de emissões. O ponto comum, em sua análise, é que eficiência energética e transição energética deixam de ser ações genéricas e passam a exigir diagnóstico, dados e comprovação técnica específica para cada operação.
Ao encerrar a entrevista, Diogo relaciona a descarbonização a uma mudança mais ampla na forma como empresas acessam mercados, financiamento e competitividade. Ele recorda os compromissos brasileiros no âmbito do Acordo de Paris, destaca a cobrança de emissões incorporadas em produtos importados pela União Europeia por meio do CBAM e menciona a existência de linhas de crédito com condições diferenciadas para empresas que comprovem boas práticas de ESG. A mensagem central é que o tema ultrapassa a dimensão ambiental: à medida que medir, reduzir e comprovar emissões passa a influenciar relações comerciais e financeiras, cresce também a importância de profissionais com capacidade técnica para estruturar projetos confiáveis e transformar a descarbonização em planejamento de longo prazo.