Um estudo desenvolvido pelo grupo de trabalho do Centro de Estudos ESG da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), sob coordenação do professor Alexandre Garcia, identificou desafios relevantes na transparência das informações sobre créditos de carbono divulgadas por empresas brasileiras. Intitulado Transparência sobre Créditos de Carbono: Um Olhar sobre as Empresas do Índice ICO2, o artigo analisou companhias integrantes do Índice Carbono Eficiente (ICO2), da B3, e constatou que 42 das 56 empresas que declararam criar ou adquirir créditos de carbono não apresentaram menções a essas transações nas demonstrações financeiras e nos documentos administrativos examinados. O resultado evidencia uma diferença entre as práticas ambientais declaradas e sua divulgação econômico-financeira, em um momento de transformação do mercado brasileiro de carbono.
A pesquisa considerou a carteira do ICO2 de 2024, composta por 73 empresas, das quais 56 responderam afirmativamente à questão sobre criação ou aquisição de créditos de carbono com base em projetos. O levantamento ocorre em um contexto de avanços regulatórios, especialmente após a sanção da Lei nº 15.042, de dezembro de 2024, que instituiu o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE). A legislação representa um marco para a organização do mercado regulado de carbono no país e amplia a importância de mecanismos capazes de assegurar transparência, integridade e rastreabilidade das informações ambientais e financeiras apresentadas pelas organizações.
Entre as 56 companhias analisadas, apenas 14 fizeram referência a operações com carbono nos documentos financeiros ou administrativos examinados. Desse grupo, cinco mencionaram as transações somente nos relatórios da administração, enquanto nove apresentaram registros em contas contábeis das demonstrações financeiras: Ambipar, Auren, Natura, Irani, Orizon, 3Tentos, Raízen, Ultrapar e Vibra. O artigo destaca que quatro dessas empresas — Raízen, Ultrapar, 3Tentos e Vibra — atuam em setores sujeitos à regulação da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), com obrigações específicas relacionadas à descarbonização. Segundo os pesquisadores, cinco companhias — Ambipar, Auren, Natura, Irani e Orizon — evidenciaram de forma mensurada operações com créditos de carbono fora desse conjunto regulatório específico.
A diferença entre os relatos de sustentabilidade e os registros financeiros constitui um dos principais pontos de atenção apresentados pelo estudo. Conforme a análise, as 42 empresas sem evidenciação das transações nos documentos financeiros examinados abordaram o tema em relatórios de sustentabilidade, relatos integrados ou documentos ESG. Para os autores, essa desconexão pode dificultar a verificação independente das informações e comprometer a confiança de investidores e organismos reguladores. A discussão também ganha relevância diante dos padrões internacionais de divulgação de sustentabilidade desenvolvidos pelo International Sustainability Standards Board (ISSB), que reforçam a necessidade de integração entre informações financeiras e riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade. A ausência de menção contábil, isoladamente, entretanto, não comprova irregularidade ou prática de greenwashing, pois a avaliação depende da natureza, da materialidade e das exigências aplicáveis a cada operação.
O artigo conclui que o fortalecimento do mercado brasileiro de carbono exige avanços na conexão entre compromissos ambientais, governança corporativa e transparência financeira. Embora o Brasil apresente potencial para ampliar sua participação internacional em iniciativas de descarbonização, os pesquisadores ressaltam que a credibilidade das operações depende de informações consistentes e verificáveis. O trabalho reúne contribuições de Alexandre Garcia, Allan Carvalho, Davi Ciasca, Dênis Carvalho, Eloísa Bicalho, Marina Martins, Régis Cunha, Ronaldo Froes, Tiago Slavov e Verônica Santana, integrantes do grupo de trabalho do Centro de Estudos ESG da FECAP. A análise contribui para o debate sobre responsabilidade corporativa, qualidade da informação e desenvolvimento de um mercado de carbono mais transparente.
acesse o Artigo na íntegra em : https://cdn.prod.website-files.com/68f61a8939cd5e6157cc5e68/6ad8fcc4df19873c3c545cda_TRANSPARENCIA%20SOBRE%20CR%C3%89DITOS%20DE%20CARBONO.pdf