O debate sobre qualidade do ar em ambientes de saúde passa a alcançar de forma mais direta uma das populações que exigem atenção permanente nas políticas de prevenção: as pessoas idosas que vivem em instituições de longa permanência. A Federação das Instituições de Longa Permanência para Idosos do Rio Grande do Sul (FILPI-RS) formalizou apoio ao Pacto Rio-grandense pela Descarbonização da Saúde — Gases e Poluentes Atmosféricos Internos, aproximando uma rede de 210 instituições filantrópicas de uma agenda que relaciona saúde, sustentabilidade, prevenção e melhoria das condições dos espaços internos.
A adesão ganha dimensão pela capilaridade da Federação. Presente em mais de 150 municípios, a FILPI-RS congrega instituições que acolhem aproximadamente 10 mil pessoas idosas oriundas de cerca de 380 cidades gaúchas. Quando considerados também trabalhadores, dirigentes voluntários e familiares, a estimativa institucional é de impacto direto sobre mais de 40 mil pessoas. São números que transformam a discussão sobre condições ambientais das ILPIs em uma questão que ultrapassa os limites de cada instituição e alcança a própria estrutura de proteção social do Rio Grande do Sul.
Nas instituições de longa permanência, residentes, cuidadores, profissionais de saúde, trabalhadores administrativos, voluntários e familiares compartilham ambientes internos por períodos prolongados. Nesse contexto, ventilação, climatização, sistemas de aquecimento, formas de cocção, eficiência energética e identificação de fontes de emissão deixam de ser questões isoladas de infraestrutura. Passam a integrar uma visão mais abrangente de cuidado, na qual as condições ambientais também precisam ser consideradas nas estratégias de prevenção e proteção das pessoas.
Para Analice Carrer, presidente em exercício da FILPI-RS, o apoio ao Pacto representa a incorporação de mais uma dimensão à responsabilidade das instituições com o envelhecimento digno e protegido.
“Quando falamos em cuidar da pessoa idosa, precisamos compreender o ambiente como parte desse cuidado. Nossas instituições convivem diariamente com o desafio de oferecer acolhimento, segurança e qualidade de vida a uma população que merece atenção permanente. Apoiar uma iniciativa que estimula conhecimento, prevenção, monitoramento e melhoria dos ambientes internos é também fortalecer uma cultura de cuidado com residentes e trabalhadores. A longevidade exige que avancemos não apenas na assistência, mas na construção de espaços cada vez mais seguros, saudáveis e preparados para o futuro”, afirma Analice Carrer.
A fala sintetiza uma mudança importante de perspectiva: o cuidado de longa permanência não se resume à assistência direta ao residente. Ele envolve infraestrutura, gestão, qualificação profissional, sustentabilidade financeira, conhecimento técnico e capacidade de adaptação das instituições a novas exigências sanitárias, ambientais e sociais. Ao aproximar a FILPI-RS do Pacto, essa agenda passa a dialogar com a realidade concreta de organizações filantrópicas que atendem diferentes territórios e operam sob condições econômicas, estruturais e administrativas igualmente distintas.
Fundada em 5 de novembro de 2025, durante Assembleia Geral realizada na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, a FILPI-RS surgiu da necessidade de estabelecer uma representação estadual para as instituições de longa permanência sem fins lucrativos. Idealizada pelo Rotary Clube Porto Alegre - Norte, a Federação tem como missão congregar, representar, defender e fortalecer essas entidades. Sua estrutura para o mandato 2025-2028 tem Gildásio Alves de Oliveira como presidente licenciado e Analice Carrer como vice-presidente e presidente em exercício, além de Leandro Oliveira da Fontoura, secretário-geral, e Rodolfo José Eidt, tesoureiro.
A organização territorial da Federação ajuda a dimensionar o alcance dessa representação. A atuação está dividida em dez regiões do Estado, entre elas Grande Porto Alegre, Serra Gaúcha, Litoral Norte, Vale do Rio Pardo e Taquari, Sul, Campanha e Fronteira Oeste, Centro, Missões e Noroeste, Planalto Médio e Alto Uruguai e Serra do Botucaraí e Vale do Caí. Vinte ILPIs exercem funções de representação regional, criando uma estrutura destinada a aproximar a direção estadual das demandas enfrentadas pelas instituições nos municípios.
Essa capilaridade também pode dar ao Pacto uma possibilidade relevante de aproximação com realidades locais. A proposta do Pacto Rio-grandense pela Descarbonização da Saúde prevê estabelecer uma cultura permanente de medição, monitoramento e mitigação de fontes de emissão de gases e poluentes atmosféricos internos, além de acompanhar indicadores, comunicar riscos, estimular pesquisa, orientar ações corretivas e apoiar a modernização gradual de equipamentos e sistemas relacionados à cocção, aquecimento, ventilação e climatização.
Promovido pelo Instituto Safeweb, membro do BioHub Tecnopuc, juntamente com Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (SIMERS), Associação Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS), Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (CREMERS), Sociedade Gaúcha de Medicina do Trabalho (SOGAMT), Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul (SPRS) e Sociedade de Pneumologia e Tisiologia do Rio Grande do Sul (SPTRS), o Pacto busca colocar a qualidade ambiental dos espaços internos no campo permanente da prevenção e da responsabilidade institucional.
A participação da FILPI-RS acrescenta uma característica particular a essa construção. Diferentemente de ambientes utilizados apenas durante parte do dia, uma instituição de longa permanência é também residência. É o espaço onde milhares de pessoas idosas dormem, se alimentam, convivem, recebem cuidados e desenvolvem suas atividades cotidianas. Essa condição amplia a importância de compreender como infraestrutura, ventilação, climatização, energia e potenciais fontes de poluentes se relacionam com a qualidade dos ambientes de acolhimento.
Ao mesmo tempo, a incorporação dessa agenda precisa considerar a realidade econômica e operacional das próprias ILPIs. A FILPI-RS estruturou seu trabalho para o triênio 2026-2028 em cinco pilares: governança e fortalecimento institucional; expansão, fidelização e participação das associadas; qualificação técnica; representação política e captação de recursos; e comunicação e visibilidade. A modernização ambiental das instituições, portanto, dialoga diretamente com desafios mais amplos de gestão, financiamento, capacitação e sustentabilidade.
Entre as iniciativas da Federação está o Observatório do Idoso, pesquisa técnico-científica desenvolvida em cooperação com a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e o Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS). A primeira fase encontra-se em consolidação de dados e deverá contribuir para orientar capacitações, projetos de adequação, produção de informações e estratégias de sustentabilidade para as instituições.
A aproximação entre a Federação e o Pacto também reforça uma perspectiva de cooperação entre assistência social, ciência, saúde e sustentabilidade. Em vez de tratar a descarbonização apenas como uma agenda de redução de emissões, a proposta aplicada aos ambientes de cuidado coloca em discussão medidas de prevenção, monitoramento, eficiência e melhoria gradual das condições internas, respeitando a capacidade e as características das instituições.
Para o Instituto Safeweb, a adesão de organizações que atuam diretamente na proteção de populações sensíveis amplia a dimensão social do Pacto. O movimento busca construir uma agenda capaz de aproximar conhecimento técnico, educação ambiental, saúde e responsabilidade institucional, transformando a discussão sobre qualidade do ar interno em ações progressivas de conscientização, avaliação e prevenção.
No caso das ILPIs, essa convergência adquire significado adicional. O envelhecimento da população amplia a necessidade de preparar estruturas de cuidado capazes de responder não apenas ao aumento da demanda, mas também à complexidade crescente da atenção à pessoa idosa. Qualificar os ambientes onde esse cuidado acontece passa, assim, a integrar uma discussão mais abrangente sobre longevidade, dignidade e saúde.
O apoio da FILPI-RS ao Pacto Rio-grandense pela Descarbonização da Saúde coloca essa discussão diante de uma rede presente em grande parte do território gaúcho. Mais do que acrescentar uma entidade à relação de apoiadores, a adesão aproxima a agenda ambiental da rotina de milhares de idosos, trabalhadores e famílias. É nesse encontro entre longevidade, prevenção, ciência e responsabilidade institucional que a qualidade dos ambientes internos deixa de ser apenas uma questão técnica e passa a ocupar espaço na própria estratégia de cuidado