Estudo liderado pela Universidade Stanford indica que a troca por modelos elétricos pode reduzir a exposição ao dióxido de nitrogênio em mais de 25%, em média, e em mais de 50% entre famílias que cozinham com maior intensidade

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Um eletrodoméstico presente diariamente na rotina de milhões de famílias pode transformar a cozinha em uma fonte relevante de poluição do ar. Um estudo liderado pela Universidade Stanford aponta que fogões a gás e a propano liberam dióxido de nitrogênio, o NO₂, em níveis capazes de representar uma parcela significativa da exposição total dos moradores a esse poluente.
Para algumas famílias, a quantidade de NO₂ respirada dentro de casa durante o uso do fogão pode ser semelhante à exposição provocada por todas as fontes externas combinadas, incluindo trânsito, indústria e geração de energia. A substituição do equipamento a gás por um modelo elétrico pode reduzir a exposição total ao poluente em mais de 25%, na média nacional dos Estados Unidos, e em mais de 50% entre os usuários que cozinham com maior frequência ou intensidade.
A pesquisa foi publicada na revista científica PNAS Nexus e apresentou a primeira estimativa nacional, por código postal, a integrar as fontes internas e externas de dióxido de nitrogênio nas residências dos Estados Unidos. O trabalho combinou medições realizadas em mais de 15 cidades, distribuídas por sete regiões, com dados de aproximadamente 133 milhões de moradias.
Poluição invisível atravessa a casa
O dióxido de nitrogênio é formado durante a combustão do gás natural ou do propano. Quando o fogão é aceso, a concentração do poluente aumenta rapidamente nas proximidades dos queimadores, mas não permanece restrita à cozinha.
As correntes de ar podem transportar o NO₂ para salas, corredores e quartos, ampliando a exposição de pessoas que nem sequer estão próximas ao equipamento. O problema pode ser mais intenso em imóveis pequenos, com menor circulação de ar ou construídos com alto nível de vedação para conservar energia. Nessas condições, os poluentes podem permanecer no ambiente por mais tempo.
Segundo o estudo, pessoas que possuem fogão a gás apresentam uma exposição residencial média e prolongada ao NO₂ estimada em aproximadamente 10 partes por bilhão. Entre as famílias que integram o grupo dos 5% que mais utilizam gás para cozinhar, a exposição pode chegar a 18 partes por bilhão ou mais.
Fogão responde por até metade da exposição
Em média, o fogão a gás ou a propano representa cerca de um quarto da exposição residencial total ao dióxido de nitrogênio. Nas casas onde se cozinha com maior frequência ou intensidade, essa participação pode ultrapassar 50%.
Já os fogões elétricos e de indução não utilizam combustão durante o preparo dos alimentos e, por isso, não acrescentam NO₂ ao ar interno. Isso não elimina a poluição proveniente das ruas, do trânsito ou das atividades industriais, mas retira uma fonte localizada dentro da própria residência.
A pesquisa avaliou especificamente a exposição ao dióxido de nitrogênio. Portanto, o percentual de redução apresentado não deve ser interpretado como uma diminuição automática de 50% de todos os gases ou contaminantes existentes dentro das casas.
Milhões poderiam respirar abaixo do limite da OMS
Os pesquisadores estimam que aproximadamente 22 milhões de pessoas nos Estados Unidos poderiam ter sua exposição prolongada ao NO₂ reduzida para níveis inferiores à diretriz da Organização Mundial da Saúde, caso diminuíssem ou interrompessem o uso de gás ou propano para cozinhar.
O estudo também aponta que os fogões a gás e a propano são responsáveis por mais de 99% das situações residenciais estimadas em que a exposição ao NO₂ ultrapassa a diretriz de curto prazo da OMS, calculada para períodos de uma hora. Esses episódios estão relacionados aos picos de concentração registrados durante e logo após o preparo das refeições.
A exposição prolongada ao dióxido de nitrogênio está associada ao aumento e ao agravamento de casos de asma infantil, além de doenças pulmonares e outros problemas de saúde. O estudo estima a exposição ao poluente, mas não acompanhou diretamente a evolução clínica das famílias que trocaram os equipamentos. Por isso, os resultados indicam potencial de redução dos riscos, e não garantia imediata de melhora da saúde.
Ventilação ajuda, mas não elimina a fonte
Abrir janelas e utilizar corretamente um exaustor com saída para o ambiente externo pode contribuir para reduzir a concentração de poluentes. No entanto, a eficiência da ventilação depende das características do imóvel, da instalação do equipamento e da forma como ele é utilizado.
A Universidade Stanford também recomenda alternativas, como cooktops portáteis de indução e pequenos aparelhos elétricos, para reduzir o tempo de combustão dentro da cozinha. A substituição completa do fogão elimina diretamente a emissão de NO₂ gerada pelos queimadores durante o preparo das refeições.
Exaustores que apenas recirculam o ar dentro da cozinha, sem conduzi-lo para fora da residência, podem ter efeito limitado sobre os gases produzidos durante a combustão.
Eficiência energética exige atenção à saúde
A pesquisa chama a atenção para um desafio das construções modernas. Imóveis mais vedados podem consumir menos energia com aquecimento ou refrigeração, mas também podem reter poluentes caso não contem com renovação adequada do ar.
A eficiência energética, portanto, precisa ser acompanhada por critérios de ventilação, monitoramento e qualidade ambiental interna. Uma residência eficiente não pode ser considerada saudável apenas porque consome menos energia.
O debate também se relaciona à transição energética e à descarbonização das edificações. A eletrificação das cozinhas reduz a presença de combustão dentro das residências e pode trazer benefícios simultâneos para a qualidade do ar, a saúde ambiental e a redução do uso direto de combustíveis fósseis.
O alerta é simples: nem toda poluição vem da rua. Em milhões de casas, uma parcela importante do ar contaminado pode estar sendo produzida a poucos metros da mesa onde a família realiza suas refeições.
Fonte: Loiola, S. A. Trocar Fogão a Gás por Elétrico Reduz Gases Tóxicos em 50% nos Ambientes Internos. Nature & Space, 19 fev. 2026 (atualizado em 27 mar. 2026). Disponível em: https://naturespace.com.br/fogao-eletrico-reduz-gases-toxicos-em-50-nos-ambientes/. Acesso em: 17 jul. 2026.
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