O mofo que se desenvolve silenciosamente dentro das paredes pode representar uma fonte de contaminação do ar em ambientes fechados, mesmo quando os sinais visíveis de umidade já desapareceram. É o que indica um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade da Finlândia Oriental e do centro de pesquisa VTT, publicado em 2026 na revista científica Building and Environment. A investigação identificou que materiais de construção danificados pela umidade podem acumular grandes concentrações de microrganismos e liberar partículas biológicas para os espaços ocupados pelas pessoas, ampliando a preocupação com a qualidade do ar interno e a conservação das edificações.
Durante a pesquisa, os cientistas reproduziram experimentalmente estruturas de paredes com e sem crescimento de mofo, controlando condições de umidade, pressão e vazamento de ar. Os resultados indicaram a presença de fungos dos gêneros Penicillium e Aspergillus, com concentrações que chegaram a 100 milhões de esporos por grama de material analisado. Um dos aspectos mais relevantes foi a constatação de que a liberação de partículas pode aumentar durante o processo de secagem das estruturas. Isso significa que a ausência aparente de umidade não garante a eliminação das fontes de contaminação, especialmente quando existem danos ocultos em paredes, revestimentos e sistemas construtivos.
Outro resultado importante envolve a movimentação do ar dentro dos edifícios. Segundo o estudo, variações de pressão semelhantes às provocadas pela abertura e pelo fechamento de portas podem intensificar significativamente o transporte de partículas biológicas. Nos experimentos, determinadas condições produziram aumentos de 100 a 10 mil vezes na deposição de fungos e bactérias sobre superfícies internas. A investigação também identificou que a presença de lã de vidro no interior das paredes funcionou como uma barreira parcial à passagem dessas partículas, demonstrando que materiais construtivos, vedação e características dos sistemas de ventilação podem influenciar a exposição dos ocupantes.
As descobertas acrescentam uma dimensão importante ao debate sobre saúde ambiental e sustentabilidade das edificações. Residências, estabelecimentos de ensino, unidades de saúde e ambientes profissionais dependem de condições adequadas de conservação para oferecer espaços internos mais seguros. Embora a pesquisa tenha analisado mecanismos de transporte de contaminantes, sem estabelecer diretamente a ocorrência de doenças entre os ocupantes, seus resultados reforçam a necessidade de atenção à umidade persistente e ao crescimento microbiano. Nesse contexto, a qualidade do ar interno também integra uma agenda de responsabilidade socioambiental, manutenção preventiva e gestão dos ambientes construídos.
A prevenção passa pela identificação e correção de infiltrações, avaliação de materiais comprometidos, vedação adequada das estruturas e adoção de estratégias de ventilação compatíveis com as características de cada edificação. Os pesquisadores destacam que controlar a umidade é fundamental, mas pode não ser suficiente quando permanecem reservatórios de contaminação no interior das paredes. Essa perspectiva converge com a agenda de educação ambiental e sustentabilidade promovida pelo Instituto Safeweb, ao evidenciar a importância de ampliar o conhecimento sobre fatores ambientais que interferem na qualidade dos espaços ocupados pela população. Incorporar a qualidade do ar interno às práticas de conservação predial representa uma medida de prevenção, responsabilidade coletiva e valorização da saúde ambiental.
Fontes consultadas
LAPPALAINEN, V.; SOHLBERG, E.; PASANEN, P. Simulation studies on the effect of microbial growth and moisture damaged materials on indoor air quality. Building and Environment, v. 301, artigo 114799, 2026.
DOI: 10.1016/j.buildenv.2026.114799