A poluição do ar não se restringe às ruas, ao trânsito e às chaminés. Estudos citados no material analisado indicam que a exposição prolongada ao material particulado também pode afetar as artérias do coração em ambientes domésticos. Pesquisa publicada na revista Environmental Pollution, liderada por Yuan Xu e colegas, analisou mais de 5.500 pessoas submetidas à tomografia das coronárias, incluindo 656 pacientes que repetiram o exame ao longo do tempo, e identificou que a exposição prolongada a PM2.5, PM10 e carbono negro provoca inflamação na gordura que envolve as artérias do coração, apontada como sinal precoce de adoecimento do vaso.
O ambiente doméstico ganha relevância nesse cenário porque as partículas podem entrar pelas janelas e portas e também ser produzidas dentro dos próprios cômodos. Outra pesquisa citada, publicada na revista Atmosphere e liderada pelo cardiologista Tomasz Urbanowicz, da Universidade de Ciências Médicas de Poznan, mostrou que cerca de 70% do PM10 na região estudada vinha do aquecimento residencial, relacionado à queima de carvão e lenha dentro ou muito perto das residências.
Nesse estudo, 63 pacientes que apresentavam artérias limpas no primeiro cateterismo foram reavaliados cerca de quatro anos e meio depois, e 19 desenvolveram novas lesões coronarianas. Entre aqueles que apresentaram progressão, 84% viviam em locais com PM10 acima de 25 µg/m³, enquanto esse percentual foi de 5% entre os que mantiveram as artérias limpas. O material destaca que a qualidade do ar no entorno das moradias foi o fator que mais diferenciou os grupos, em comparação com colesterol, diabetes ou pressão alta.
Dentro das residências, cozinhar sem exaustão adequada, acender velas e incensos, fumar em espaços fechados e utilizar lareiras ou aquecedores a combustão sem manutenção são situações apontadas como capazes de concentrar material particulado em locais mal ventilados. Conforme o conteúdo científico apresentado, as partículas inaladas ativam células de defesa nos pulmões, que liberam substâncias inflamatórias na corrente sanguínea, contribuindo para estresse oxidativo, disfunção da parede dos vasos e crescimento das placas de gordura. O dano também é descrito em níveis considerados aceitáveis pelas regras oficiais e se intensifica em pessoas com hipertensão, diabetes ou histórico de tabagismo.
A conclusão apresentada pelos pesquisadores reúne duas frentes: a revisão para baixo dos limites de qualidade do ar e a adoção de cuidados dentro das residências. Entre as medidas citadas estão ventilar os ambientes diariamente, utilizar exaustor ao cozinhar, evitar fumar em espaços internos, manter aquecedores e lareiras em bom estado e reduzir fontes internas de fumaça. Os estudos reunidos no material associam, assim, a qualidade do ar respirado dentro de quatro paredes ao risco cardiovascular e colocam a atenção aos ambientes internos entre as medidas relacionadas à proteção do coração.
REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
XU, Y. et al. Long-term particulate matter exposure and coronary inflammation: A large-scale cohort study assessed by pericoronary fat attenuation index. Environmental Pollution, 2026. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.envpol.2026.128840
URBANOWICZ, T. et al. Long-Term Exposure to PM10 Air Pollution Exaggerates Progression of Coronary Artery Disease. Atmosphere, v. 15, n. 2, art. 216. Disponível em: https://doi.org/10.3390/atmos15020216