Com avanço da energia solar, eólica e hidrelétrica, transição energética deixa de ser promessa e passa a reorganizar mercados, investimentos e estratégias de desenvolvimento no Brasil e no mundo.

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As fontes renováveis de energia ultrapassaram o carvão na geração global deeletricidade e abriram uma nova etapa na economia mundial. O avanço, registradoem 2025, marca uma mudança estrutural após mais de um século de domínio docarvão como principal base da eletricidade no planeta.
Segundo reportagem publicada pela VEJA, na edição VEJA Negócios nº 27, dejunho de 2026, fontes como solar, eólica e hidrelétrica passaram a responderpor cerca de 34% da matriz elétrica global, superando a participação do carvão,estimada em 33%. A informação está alinhada ao levantamento da Ember, centro depesquisa em energia sediado em Londres, que apontou que as renováveisalcançaram 33,8% da geração elétrica mundial em 2025, contra 33% do carvão.
A mudança representa um ponto de inflexão na transição energética. Durantedois séculos, o carvão foi um dos pilares da industrialização, da expansãourbana e da geração elétrica. Agora, a combinação entre avanço tecnológico,queda de custos, políticas climáticas e busca por segurança energética colocaas fontes limpas no centro da nova economia global.
Para o Instituto Safeweb, o avanço das renováveis confirma que asustentabilidade deixou de ser apenas uma agenda ambiental para se tornar umeixo estratégico de desenvolvimento econômico, inovação, competitividade eresponsabilidade socioambiental. A transição energética passa a influenciardecisões de governos, empresas, investidores e consumidores.
A liderança desse processo está concentrada principalmente na China e naUnião Europeia. Conforme a reportagem da VEJA, os europeus iniciaram, ainda nosanos 1990, uma política consistente de diversificação da matriz elétrica, comdestaque para parques eólicos em áreas como o Mar do Norte. A China, por suavez, acelerou a transformação ao dominar a produção de turbinas, painéissolares e componentes utilizados em projetos renováveis.
O impacto da escala chinesa foi decisivo para reduzir custos e ampliar acompetitividade das fontes limpas. A expansão da cadeia produtiva de painéissolares, turbinas e baterias tornou a energia renovável mais acessível e ajudoua transformar tecnologias antes consideradas caras em alternativas centrais paraatender ao crescimento da demanda por eletricidade.
A queda de custos é um dos fatores mais relevantes dessa virada. O relatórioda Agência Internacional de Energia Renovável sobre custos de geração em 2024mostra que as tecnologias renováveis seguiram competitivas, com forte reduçãoacumulada desde 2010, especialmente na energia solar fotovoltaica, na energiaeólica e no armazenamento em baterias.
Diferentemente dos combustíveis fósseis, fontes como sol e vento utilizamrecursos locais e reduzem a dependência de importações contínuas dematéria-prima. Esse aspecto fortalece a segurança energética, especialmente emum cenário internacional marcado por conflitos, sanções econômicas, disputascomerciais e instabilidade em regiões estratégicas para o petróleo e o gás.
A geopolítica tem sido um acelerador da transição. Países e empresas buscamreduzir sua exposição a cadeias internacionais de combustíveis fósseis,historicamente vulneráveis a choques de preço e interrupções no abastecimento.Nesse contexto, as renováveis deixam de ser apenas uma resposta climática epassam a ser também uma estratégia de soberania energética.
O gás natural teve papel importante nas últimas décadas como combustível detransição, por emitir menos gases de efeito estufa que o carvão na geraçãoelétrica. Ainda assim, ele permanece vinculado a cadeias internacionais defornecimento e sujeito a oscilações geopolíticas, o que reforça o interesse porfontes renováveis associadas a armazenamento, redes modernas e planejamentoenergético.
No Brasil, o cenário apresenta vantagens e contradições. O país já possuiuma das matrizes elétricas mais limpas entre as grandes economias, com fortepresença da geração hidrelétrica, eólica, solar e de biomassa. O BalançoEnergético Nacional 2025, da Empresa de Pesquisa Energética, aponta que asfontes renováveis mantêm participação expressiva na matriz brasileira e seguemem trajetória de expansão.
A reportagem da VEJA destaca que cerca de 85% da eletricidade produzida nopaís vem de fontes de baixa emissão, especialmente hidrelétricas, e que atendência é de crescimento com novos projetos solares e eólicos. Dados da Embertambém apontam a baixa intensidade de carbono da geração elétrica brasileira emcomparação com a média global.
Apesar do potencial, o Brasil enfrenta desafios relevantes. Um deles é ocusto final da energia para o consumidor. Estudo da PwC Brasil em parceria como Instituto Acende Brasil apontou que, no ano-calendário de 2024, tributos eencargos setoriais representaram 44,8% da receita bruta operacional dasempresas analisadas do setor elétrico. Esse peso ajuda a explicar a distânciaentre o custo de produção e o valor pago na conta de luz.
Outro desafio é a infraestrutura. A expansão das fontes solar e eólica exigeredes de transmissão mais robustas, armazenamento em baterias, modernização daoperação do sistema e planejamento de longo prazo. Sem isso, o país podeenfrentar limitações como o curtailment, quando usinas precisam reduzir ageração por excesso de oferta ou restrições na rede.
A transição energética, portanto, deixou de ser apenas um desafiotecnológico. A nova fase exige governança, regulação eficiente, planejamento,investimentos em infraestrutura e integração entre geração, transmissão,distribuição, armazenamento e consumo.
Para o Instituto Safeweb, esse momento reforça a necessidade de ampliar aeducação ambiental e energética no Brasil. A sociedade precisa compreender queenergia limpa não se resume à instalação de painéis solares ou parques eólicos.Ela envolve escolhas econômicas, políticas públicas, inovação, justiça social,eficiência energética, preservação ambiental e compromisso com as próximasgerações.
A ultrapassagem do carvão pelas renováveis simboliza mais do que uma mudançaestatística. Ela sinaliza a passagem da economia industrial baseada emcombustíveis fósseis para uma nova economia de baixo carbono, sustentada poreletrificação, digitalização, inteligência artificial, armazenamento,eficiência e fontes limpas.
Se o carvão moveu a era das chaminés, a eletricidade de baixa emissão tendea sustentar a nova economia digital. A transição energética já não é umapromessa distante. Ela está em curso, reorganizando mercados, cadeiasprodutivas, investimentos e a forma como o mundo produzirá desenvolvimento naspróximas décadas.
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