Editorial

Qualidade do ar no ambiente interno e seus impactos na saúde

A qualidade do ar em ambientes internos deve ser entendida como um grande desafio na saúde pública, uma vez que a maior parte da população passa grande parte do tempo em espaços fechados, onde pode estar exposta a concentrações elevadas de poluentes. A cocção e a combustão de combustíveis como gás, lenha e carvão são importantes fontes de contaminação do ar interior, liberando material particulado (PM10, PM₂,₅ e ultrafinas PM 0,1), monóxido de carbono, dióxido de nitrogênio, benzeno, formaldeído e compostos orgânicos voláteis. O melhor térmico das construções modernas tem como efeito colateral a redução da ventilação e na renovação de ar. Desta forma, em muitos ambientes residenciais, comerciais e institucionais as concentrações desses poluentes ultrapassam os limites recomendados por órgãos reguladores, em função da ventilação inadequada e descuidos na geração de poluentes.  

Fogões a gás e propano emitem benzeno, substância reconhecidamente carcinogênica, em níveis superiores aos observados em equipamentos elétricos ou por indução. Além disso, esse e outros poluentes ambientais podem se espalhar para outros cômodos da residência e permanecer no ambiente por horas. Em cozinhas comerciais foram registradas concentrações de PM₂,₅ entre 60 e 459 µg/m³ e de NO₂ entre 60 e 180 µg/m³, valores associados a maior risco ocupacional. Cerca de 20% dos trabalhadores de cozinhas apresentavam sintomas respiratórios sugestivos de asma, reforçando a preocupação com a exposição prolongada a esses contaminantes.  

Os efeitos à saúde vão muito além do sistema respiratório. A exposição crônica a poluentes internos está associada ao aumento de asma, doença pulmonar obstrutiva crônica, acidente vascular cerebral, doenças cardiovasculares e câncer. Crianças, gestantes, idosos e portadores de doenças crônicas representam os grupos mais vulneráveis. A Organização Mundial da Saúde estima que 36% das mortes na infância tenham a poluição como fator causal ou contribuinte, resultando em aproximadamente 2,3 milhões de mortes prematuras por ano. Foi demonstrado que exposição à poluentes do ar ambiente domiciliar durante a gestação e infância teve grande impacto no sistema respiratório comparado com a população controle em um intervalo de 5 anos. A poluição intradomiciliar compromete ainda o neurodesenvolvimento, a cognição, a memória visual, o comportamento e a saúde mental de crianças.  

Estes e outros achados nos alertam para a necessidade urgente de implementar políticas de prevenção aliadas ao monitoramento contínuo da qualidade do ar interno, especialmente em residências, escolas, hospitais e ambientes de trabalho. A ventilação adequada, preferencialmente com exaustão para o exterior, reduz significativamente a concentração de poluentes, mas não elimina sua fonte. Por isso, deve-se objetivar a substituição progressiva de fogões a lenha e a gás por tecnologias elétricas ou de indução, que apresentam menor impacto sobre a saúde. Além disso, tem disso demonstrado que alguns depuradores de ar podem reduzir a concentração de partículas finas em até 60%. Portanto, o controle da poluição interna deve ser tratado como prioridade de saúde pública visando proteger especialmente crianças e outras populações vulneráveis.

Prof. Dr. Jefferson Pedro Piva

Professor Titular de Pediatria (aposentado) UFRGS | Membro Titular da Academia Sul-rio-grandense de Medicina | Membro Titular da Academia Brasileira de Pediatria

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Instituto Safeweb News 7

22/6/26 9:50

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