Revisão científica identificou falhas na renovação e na filtragem do ar em estabelecimentos de saúde e aponta que sistemas centrais bem mantidos podem ser mais eficientes no controle de contaminantes

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Hospitais são construídos para proteger vidas, mas o ar respirado dentro dessas edificações também pode representar um risco para pacientes, visitantes e profissionais de saúde. Uma revisão científica publicada em 2025 alerta que diversos estabelecimentos analisados não possuíam sistemas adequados de renovação do ar, condição que favorece o aumento da concentração de contaminantes nos ambientes internos.
O estudo, desenvolvido pelas pesquisadoras Karla Gonçalves Schroeffer e Érica Coelho Pagel, da Universidade Vila Velha, analisou 19 artigos científicos sobre a qualidade do ar interior em hospitais e outros edifícios de saúde. Os trabalhos foram selecionados em bases internacionais e avaliaram fatores relacionados à estrutura das edificações, aos sistemas de ventilação e à saúde ocupacional das equipes.
Os resultados mostram que a ausência de filtragem do ar externo está entre os principais fatores responsáveis pelo aumento da concentração interna de material particulado. A pesquisa também concluiu que os sistemas centrais de ar-condicionado se mostraram mais eficientes do que a ventilação natural e os sistemas mecânicos não centrais, como aparelhos de janela e modelos split isolados.
Poluentes químicos e biológicos circulam pelos ambientes
O ar hospitalar pode conter uma combinação de contaminantes químicos, físicos e biológicos. Entre os elementos investigados estão o dióxido de carbono, o monóxido de carbono, o dióxido de nitrogênio, o ozônio, o material particulado, os compostos orgânicos voláteis, o formaldeído, o benzeno, o tolueno, os fungos, as bactérias e os vírus.
Esses contaminantes podem ser originados no próprio edifício ou entrar por meio do ar externo. Produtos farmacêuticos, substâncias de laboratório, materiais de limpeza e esterilização, mobiliário, materiais de construção e atividades humanas também podem interferir na qualidade ambiental.
A circulação de pacientes, visitantes e trabalhadores pode provocar a ressuspensão de partículas depositadas nos pisos e em outras superfícies. Quando essas partículas voltam ao ar, podem transportar microrganismos e ampliar a exposição das pessoas presentes no ambiente.
O problema é especialmente sensível em hospitais porque pacientes com diferentes condições clínicas, incluindo pessoas imunossuprimidas ou com doenças respiratórias, compartilham espaços com trabalhadores que permanecem por longos períodos dentro da edificação.
Partículas podem permanecer suspensas por longos períodos
O material particulado é formado por partículas sólidas ou líquidas suspensas no ar. As menores conseguem alcançar regiões profundas do sistema respiratório.
Aerossóis infecciosos com dimensões inferiores a cinco micrômetros podem permanecer suspensos e viáveis no fluxo de ar por períodos prolongados. Em locais sem renovação adequada, essa característica pode elevar significativamente o risco de transmissão de agentes infecciosos pela via aérea.
A situação se tornou ainda mais relevante após a pandemia de Covid-19, quando a transmissão de vírus respiratórios pelo ar passou a ocupar o centro das discussões sobre arquitetura hospitalar, ventilação, saúde ocupacional e prevenção de futuras emergências sanitárias.
Segundo o estudo, a qualidade inadequada do ar pode estar relacionada à redução do conforto e da produtividade, ao aumento do absenteísmo, ao desenvolvimento de doenças ocupacionais e ao risco de infecções entre pacientes.
Ar-condicionado não significa, sozinho, ar seguro
A presença de climatização não garante automaticamente uma boa qualidade do ar. O resultado depende do projeto, da capacidade de renovação, dos filtros utilizados e da manutenção dos equipamentos.
Nos estudos analisados, edifícios com sistemas centrais de ar-condicionado apresentaram maior capacidade de remover material particulado e fungos provenientes do ambiente externo. Em contrapartida, locais equipados apenas com aparelhos de janela ou sistemas split isolados registraram concentrações mais elevadas desses contaminantes.
A explicação está no fato de que os sistemas centrais podem combinar renovação, filtragem, distribuição e controle do ar. Os equipamentos individuais, por sua vez, geralmente refrigeram o ambiente, mas não realizam, necessariamente, a entrada controlada e a filtragem adequada do ar externo.
Mesmo os sistemas centrais, entretanto, exigem manutenção permanente. Filtros saturados, dutos contaminados, falhas operacionais e ausência de monitoramento podem comprometer o desempenho e transformar a climatização em um meio de distribuição de poluentes.
Ventilação natural pode ser insuficiente
Abrir portas e janelas pode ajudar na renovação do ar em determinadas situações, mas a ventilação natural apresenta limitações em estabelecimentos de saúde.
Em um dos trabalhos analisados, um centro de saúde que dependia exclusivamente da ventilação natural apresentou dificuldades durante períodos de atendimento de urgência e emergência. Em alguns pontos, as concentrações de dióxido de carbono e as cargas microbiológicas ultrapassaram os limites adotados pela legislação local.
O dióxido de carbono é utilizado como indicador da renovação do ar. Concentrações elevadas podem revelar ambientes ocupados sem a entrada suficiente de ar externo.
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária estabelece a concentração de 1.000 partes por milhão como referência para o dióxido de carbono em ambientes climatizados. A NBR 17037 permite valores calculados em relação à concentração externa, considerando as características das áreas urbanas.
Atividades hospitalares também alteram a qualidade do ar
A poluição interna não depende apenas da ventilação. As próprias atividades realizadas nos hospitais podem elevar a concentração de contaminantes.
Procedimentos cirúrgicos, sucção aberta de pacientes, fisioterapia respiratória, movimentação de pessoas e situações de emergência podem aumentar a presença de partículas e bioaerossóis no ambiente.
A distribuição dos setores também exerce influência. Banheiros, laboratórios, estacionamentos, áreas de resíduos e espaços com produtos químicos podem funcionar como fontes de poluição quando não existem barreiras adequadas, pressurização, exaustão e separação dos fluxos.
A revisão ressalta que o planejamento arquitetônico deve considerar as diferentes atividades desenvolvidas em cada ambiente. Também deve evitar a contaminação cruzada entre espaços limpos, áreas críticas, setores administrativos e locais potencialmente poluidores.
Trabalhadores podem sofrer redução da capacidade pulmonar
Um dos estudos incluídos na revisão comparou a saúde respiratória de uma equipe hospitalar com a de trabalhadores de um escritório utilizado como grupo de controle.
Os pesquisadores encontraram concentrações médias mais elevadas de bioaerossóis, material particulado e compostos orgânicos voláteis no hospital. Os testes também indicaram redução da capacidade pulmonar entre os integrantes da equipe hospitalar, em comparação com os trabalhadores do escritório.
Outros estudos relataram sintomas associados à chamada Síndrome do Edifício Doente, como irritação e obstrução nasal, ressecamento da pele, irritação da garganta e dos olhos, dores de cabeça, cansaço, letargia e perda de concentração.
A síndrome é caracterizada quando uma parcela significativa dos ocupantes apresenta sintomas relacionados ao ambiente interno, que diminuem ou desaparecem quando as pessoas se afastam do edifício.
Risco pode alcançar até os setores administrativos
A exposição não está restrita às equipes que trabalham diretamente com pacientes. Profissionais dos setores administrativos, da recepção, da manutenção e do apoio também compartilham o ar do edifício e podem permanecer expostos a contaminantes transportados entre diferentes áreas.
Um dos estudos analisados identificou risco potencial de transmissão de tuberculose até mesmo em escritórios administrativos próximos a pacientes ainda não diagnosticados. O resultado reforça que as estratégias de ventilação devem contemplar toda a edificação, e não apenas salas cirúrgicas, unidades de terapia intensiva e ambientes considerados críticos.
Brasil ainda possui poucos estudos
A revisão sistemática encontrou 19 artigos internacionais distribuídos por 13 países, mas nenhum estudo brasileiro entre os trabalhos inicialmente selecionados nas bases ScienceDirect, PubMed e Scopus.
Para incluir a produção nacional, as pesquisadoras realizaram uma busca complementar no Google Scholar. Entre 128 trabalhos inicialmente identificados, apenas cinco atenderam aos critérios estabelecidos: duas dissertações, duas teses e um artigo de revisão.
A baixa quantidade de trabalhos evidencia uma lacuna científica no país, especialmente em relação à influência da qualidade do ar sobre a saúde ocupacional dos trabalhadores.
Também não foi identificado um padrão único para a avaliação da qualidade do ar nos estabelecimentos de saúde. As pesquisas utilizaram diferentes parâmetros, métodos e períodos de monitoramento, dificultando comparações diretas entre hospitais e países.
Monitoramento deve integrar a gestão hospitalar
As conclusões apontam que a qualidade do ar precisa ser considerada desde o projeto arquitetônico até a operação cotidiana dos estabelecimentos.
Entre as medidas necessárias estão a renovação adequada do ar, a filtragem do ar externo, a manutenção dos sistemas de climatização, o monitoramento de partículas e bioaerossóis, o controle da umidade, a limpeza dos espaços e a separação correta entre áreas com diferentes níveis de risco.
A pesquisa também destaca a necessidade de acompanhar as condições de saúde dos trabalhadores, estabelecer protocolos de manutenção e ampliar as investigações sobre os efeitos da exposição prolongada.
O alerta é direto: dentro de um hospital, cuidar do ar também é cuidar do paciente. A ventilação não pode ser tratada apenas como uma questão de conforto térmico, mas como parte essencial da prevenção de infecções, da segurança ocupacional e da qualidade da assistência em saúde.
Fonte: Schroeffer, K. G.; Pagel, É. C. Qualidade do ar interior em edifícios de saúde e sistemas de ventilação. PARC Pesquisa em Arquitetura e Construção, v. 16, e025007, 2025. ISSN 1980-6809. Disponível em: https://doi.org/10.20396/parc.v16i00.8674496. Acesso em: 17 jul. 2026.
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