Pesquisa da Universidade Santa Cecília aponta que gestão de resíduos, eficiência energética, equidade, segurança das equipes e transparência podem tornar as instituições de saúde mais responsáveis e resilientes

Pesquise por categorias, títulos ou temas que gostaria de ler
A incorporação de critérios ambientais, sociais e de governança está ampliando a maneira como hospitais, clínicas, laboratórios e demais organizações do setor da saúde avaliam sua eficiência e sua responsabilidade perante a sociedade. Mais do que atender a exigências regulatórias, a agenda ESG pode orientar decisões relacionadas ao uso de recursos, à qualidade dos serviços, à segurança dos trabalhadores e à transparência institucional.
Essa é a principal reflexão do artigo A importância de ESG (Environmental, Social, and Governance) para o setor da saúde, produzido por Ana Paula Metropolo e Vinicius Roveri, da Universidade Santa Cecília, em Santos. O trabalho foi publicado nos Anais do XIII Encontro Nacional de Pós-Graduação, em 2024.
A pesquisa foi desenvolvida por meio de revisão da literatura, análise de artigos, livros, relatórios, políticas e diretrizes institucionais. Os autores também examinaram estudos de caso para identificar benefícios, dificuldades e práticas adotadas por organizações que buscaram integrar os princípios ESG à gestão da saúde.
No eixo ambiental, o estudo destaca a gestão de resíduos, o uso eficiente da energia, o controle do consumo de recursos e a adoção de tecnologias mais sustentáveis.
Instituições de saúde possuem operações complexas e contínuas, com necessidade de energia, água, equipamentos, produtos químicos, materiais descartáveis e sistemas específicos para o tratamento de resíduos. Nesse contexto, decisões ambientais também podem produzir efeitos operacionais e econômicos.
Segundo a análise apresentada pelos pesquisadores, instituições que incorporaram práticas ESG relataram redução na geração de resíduos e no consumo energético, com reflexos sobre os custos e o impacto ambiental de suas atividades. O artigo, entretanto, não apresenta percentuais próprios para essas reduções, pois se baseia em revisão qualitativa e estudos de caso.
A dimensão ambiental do ESG não deve ser entendida apenas como uma política de descarte. Ela envolve planejamento de compras, eficiência das instalações, manutenção de equipamentos, gestão de insumos, rastreabilidade dos resíduos e avaliação dos impactos provocados pelas operações.
O componente social da agenda ESG está diretamente relacionado à própria missão do setor da saúde. Entre os aspectos apontados no estudo estão a equidade no acesso aos serviços, a segurança dos profissionais, a inclusão, o respeito à diversidade e a qualidade do atendimento oferecido aos pacientes.
Os estudos de caso analisados indicaram que iniciativas voltadas à segurança e ao bem-estar dos trabalhadores podem contribuir para ambientes profissionais mais protegidos e inclusivos. Também foi observada uma relação positiva entre essas práticas e a qualidade do atendimento.
Nesse eixo, a responsabilidade das instituições alcança diferentes públicos: pacientes, familiares, trabalhadores, fornecedores, comunidades e organizações parceiras. A agenda social pode incluir protocolos de segurança, prevenção de riscos ocupacionais, acessibilidade, diversidade nas equipes, escuta dos pacientes e políticas destinadas à redução de desigualdades.
A qualidade assistencial, portanto, não depende apenas da tecnologia disponível ou da capacidade técnica das equipes. Também está relacionada às condições de trabalho, ao acolhimento, à ética nas relações e à capacidade de assegurar que diferentes grupos tenham acesso digno aos serviços de saúde.
A pesquisa identifica a governança e a transparência como condições essenciais para que as iniciativas ambientais e sociais permaneçam integradas à gestão.
Estruturas de responsabilidade bem definidas, processos transparentes, acompanhamento de indicadores e mecanismos de prestação de contas ajudam a evitar que o ESG seja tratado como uma ação isolada de comunicação institucional.
De acordo com os autores, organizações com estruturas de governança mais claras e processos transparentes de reporte apresentaram maior capacidade de implementar e manter suas práticas ESG. Entre as recomendações estão a definição de estratégias, o treinamento contínuo dos profissionais e a adoção de tecnologias que favoreçam a sustentabilidade.
Na prática, isso significa estabelecer responsabilidades, objetivos, indicadores e formas de acompanhamento. Uma instituição precisa demonstrar como seus compromissos são transformados em decisões, procedimentos e resultados verificáveis.
Apesar dos benefícios identificados, a adoção de práticas ESG enfrenta obstáculos. O artigo destaca a necessidade de revisar políticas internas, capacitar profissionais, investir em tecnologia e alinhar os novos procedimentos aos objetivos da organização.
Essas mudanças podem exigir transformação cultural, especialmente quando a sustentabilidade é vista apenas como responsabilidade de um setor específico. Para produzir resultados consistentes, os critérios ambientais, sociais e de governança precisam fazer parte do planejamento, das compras, da gestão de pessoas, da assistência, da infraestrutura e das decisões estratégicas.
Certificações ambientais e de sustentabilidade podem contribuir para organizar processos e demonstrar compromissos, mas não substituem metas claras, acompanhamento permanente e transparência.
Na avaliação institucional do Instituto Safeweb, a pesquisa reforça que a sustentabilidade na saúde precisa ser compreendida de maneira integrada. Reduzir impactos ambientais, preservar recursos, proteger trabalhadores, ampliar a equidade e fortalecer a governança são partes de uma mesma responsabilidade.
O ESG não deve ser utilizado apenas como selo reputacional. Sua efetividade depende da capacidade de transformar princípios em procedimentos concretos, indicadores acompanháveis e decisões transparentes.
Instituições de saúde exercem uma função social essencial e mantêm uma relação direta com a vida, a segurança e o bem-estar das pessoas. Por esse motivo, seus compromissos ambientais e sociais precisam estar apoiados em estruturas de governança capazes de assegurar continuidade, responsabilidade e prestação de contas.
A integração desses princípios pode tornar o setor mais preparado para enfrentar riscos ambientais, sociais, econômicos e operacionais. Mais do que acompanhar uma tendência corporativa, incorporar o ESG à saúde significa ampliar a qualidade do cuidado e a responsabilidade das instituições com as pessoas e com o planeta.
Assine nossa newsletter e receba insights, projetos e oportunidades de participar.
Fazer inscrição gratuitamente