A qualidade do ar melhorou de forma consistente na Europa ao longo das últimas duas décadas, mas a população continua exposta a concentrações superiores aos níveis recomendados para proteger a saúde. Segundo o relatório “Air quality status in Europe 2026”, publicado pela Agência Europeia do Ambiente, mais de nove em cada dez europeus vivem sob níveis de poluição acima das diretrizes de qualidade do ar da Organização Mundial da Saúde.
A avaliação utiliza informações de 39 países e compara as concentrações registradas com três referências: os padrões atuais da União Europeia, os novos limites que deverão ser alcançados até 2030 e as diretrizes sanitárias da OMS. Os dados de 2024 foram oficialmente reportados e validados pelos países. As informações de 2025 são preliminares e ainda poderão ser modificadas após a conclusão do processo de validação.
Embora a maior parte das estações cumpra os limites legais europeus em vigor para diversos poluentes, a situação permanece preocupante para o material particulado PM10, o ozônio ao nível do solo e o benzo(a)pireno. Em 2024, mais de 12% das estações que forneceram dados registraram, para cada um desses três poluentes, concentrações acima dos padrões atuais da União Europeia.
Limites legais e proteção da saúde não são equivalentes
O relatório evidencia uma diferença central entre o cumprimento das normas e a proteção efetiva da saúde. Os limites legais da União Europeia são obrigações regulatórias aplicáveis aos Estados-membros. As diretrizes da OMS, por sua vez, são referências sanitárias mais rigorosas, formuladas para reduzir riscos de doenças e mortes associadas à poluição atmosférica.
Essa diferença aparece com clareza no material particulado fino PM2,5, considerado um dos contaminantes mais prejudiciais à saúde. Em 2024, apenas 23 estações, equivalentes a 1% do total analisado, ultrapassaram o limite anual atual da União Europeia. Quando a comparação é feita com a diretriz anual da OMS, entretanto, 92,5% das estações ficaram acima do nível recomendado.
Das 2.223 estações utilizadas nessa comparação, somente 166 registraram concentração anual de PM2,5 inferior à diretriz da OMS. A Agência Europeia do Ambiente relaciona a exposição a concentrações elevadas a impactos respiratórios e cardiovasculares, além de efeitos sobre a qualidade de vida e a mortalidade evitável.
Material particulado exige medidas adicionais
O PM10 está relacionado à queima de combustíveis sólidos para aquecimento residencial e também tem origem no transporte, na agricultura, na indústria e em fontes naturais. Poeira transportada do Saara, sal marinho e atividade vulcânica podem contribuir para o aumento das concentrações em determinadas regiões.
Em 2024, 12,5% das estações registraram níveis de PM10 acima do limite diário atual da União Europeia. Nos dados preliminares de 2025, esse percentual foi de 4,8%. Ao comparar a situação de 2024 com o limite diário previsto para 2030, 70,3% das estações já se encontravam abaixo da futura referência.
Para o PM2,5, 60,7% das estações apresentavam concentração anual inferior ao novo limite europeu de 2030, enquanto 67% estavam abaixo do futuro limite diário. Apesar do avanço, mais de 30% das estações ainda registravam concentrações superiores aos padrões revisados para o material particulado.
Ozônio continua sendo um desafio continental
O ozônio ao nível do solo não é emitido diretamente. Ele se forma na atmosfera quando o calor e a luz solar desencadeiam reações entre óxidos de nitrogênio e compostos orgânicos voláteis. Como esses precursores podem percorrer longas distâncias, a redução do ozônio exige cooperação entre cidades, países e regiões.
Em 2024, 15,6% das estações registraram concentrações acima do limiar do valor-alvo atual. Nos dados preliminares de 2025, o percentual subiu para 22,4%. O problema se amplia quando é considerado o objetivo europeu de longo prazo: 77,4% das estações ficaram acima desse nível em 2024 e 85,4% em 2025.
A formação do ozônio é fortemente influenciada pelas condições meteorológicas. A agência alerta que o aumento da frequência e da intensidade de períodos de calor pode agravar a situação, reforçando a necessidade de integrar políticas de qualidade do ar, mitigação climática e adaptação às mudanças do clima.
Tráfego urbano mantém pressão sobre o dióxido de nitrogênio
O transporte é a principal fonte de dióxido de nitrogênio e responde por aproximadamente metade das emissões anuais de óxidos de nitrogênio na Europa. Como essas emissões ocorrem perto do solo e em áreas densamente povoadas, as maiores concentrações tendem a aparecer em grandes cidades e corredores de tráfego.
Em 2024, 2% das estações registraram concentração anual acima do limite atual da União Europeia. Entretanto, 67,2% ficaram acima da diretriz anual da OMS. A avaliação também aponta que 73% das estações já estavam abaixo do limite europeu previsto para 2030.
Benzo(a)pireno revela impactos da queima de carvão e madeira
O benzo(a)pireno é um poluente cancerígeno emitido principalmente pela combustão de carvão e madeira utilizados no aquecimento de residências e, em menor escala, por instalações industriais. As concentrações mais elevadas foram observadas no leste europeu, onde combustíveis sólidos ainda são usados em moradias, e em áreas da Itália associadas ao consumo de madeira e derivados.
Em 2024, 20,2% das estações registraram concentração superior a 1,0 nanograma por metro cúbico, valor correspondente ao alvo atual e ao limite anual definido para 2030. A maior parte dos pontos com superação estava localizada em áreas urbanas ou suburbanas.
Outros poluentes apresentam resultados mais favoráveis
O relatório aponta avanços para dióxido de enxofre, monóxido de carbono, cádmio e outros metais. Para o dióxido de enxofre, mais de 97% das estações já estavam abaixo dos limites horários e diários previstos para 2030. Nenhuma estação superou o valor-alvo europeu para cádmio em 2024.
Mesmo assim, foram observadas superações pontuais para monóxido de carbono, arsênio, chumbo e níquel. Esses episódios reforçam a importância de redes de monitoramento capazes de identificar fontes locais, principalmente em regiões industriais e urbanas.
Poluição do ar também representa perda econômica
Além dos efeitos sanitários, a poluição atmosférica provoca perdas para os sistemas públicos e para a economia. Com base em estudo citado pela Agência Europeia do Ambiente, o custo anual para os Estados-membros da União Europeia foi estimado em 600 bilhões de euros, equivalente a aproximadamente 4% do produto interno bruto.
As perdas incluem despesas com saúde, redução da produtividade e afastamentos relacionados a doenças. A melhoria da qualidade do ar, portanto, não é apenas uma agenda ambiental: envolve competitividade econômica, planejamento urbano, mobilidade, energia, agricultura, indústria e proteção social.
Novos limites exigirão planejamento até 2030
A Diretiva (UE) 2024/2881 entrou em vigor em dezembro de 2024 e estabeleceu padrões mais rigorosos, que deverão ser alcançados até 1º de janeiro de 2030. Desde 2026, os Estados-membros devem avaliar se estão no caminho adequado e elaborar roteiros de qualidade do ar quando as concentrações ultrapassarem os níveis previstos para o fim da década.
A Agência Europeia do Ambiente esclarece que a comparação apresentada no relatório não é uma avaliação formal de conformidade. Trata-se de um diagnóstico da distância entre a situação registrada em 2024 e os padrões futuros, sem incluir projeções de emissões nem medidas que ainda serão executadas.
Os resultados demonstram que a legislação produziu avanços mensuráveis, mas novas reduções serão necessárias para aproximar a qualidade do ar dos níveis considerados mais seguros para a saúde. O desafio envolve transporte, energia, aquecimento residencial, indústria, agricultura, planejamento urbano e cooperação internacional.
A pauta também dialoga com a atuação do Instituto Safeweb na promoção da educação ambiental, da sustentabilidade, da transição energética e da responsabilidade socioambiental. Transformar dados técnicos em informação acessível amplia a capacidade de governos, empresas e sociedade de compreender que qualidade do ar, saúde pública e desenvolvimento sustentável fazem parte da mesma agenda.
Fonte principal:European Environment Agency — Air quality status in Europe 2026
Publicação de 30 de abril de 2026. Dados de 2024 validados e dados de 2025 preliminares.