A União Europeia adotou novas regras para enfrentar um dos principais riscos ambientais à saúde no continente: a poluição atmosférica. A Diretiva (UE) 2024/2881 estabelece padrões mais rigorosos de qualidade do ar, amplia as exigências de monitoramento e cria instrumentos jurídicos para responsabilizar governos por violações que provoquem danos à população.
A legislação foi aprovada pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho em outubro de 2024 e substitui as diretivas anteriores sobre qualidade do ar. Os países integrantes da União Europeia deverão incorporar as novas determinações às legislações nacionais até 11 de dezembro de 2026.
A mudança ocorre diante da dimensão sanitária da poluição atmosférica. Conforme as informações reunidas no documento-base, cerca de 350 mil mortes prematuras foram relacionadas à poluição do ar na Europa em 2022. Desse total, aproximadamente 239 mil foram associadas à exposição a partículas finas PM 2,5.
O número representa mais de 11 vezes o total de mortes registradas em acidentes rodoviários no continente naquele mesmo ano, segundo os dados apresentados na publicação.
As partículas PM 2,5 estão entre os poluentes mais preocupantes por sua capacidade de penetrar profundamente nos pulmões e alcançar a corrente sanguínea. A exposição está relacionada ao agravamento de doenças respiratórias e cardiovasculares, além de outros impactos sobre a saúde.
Limites mais próximos das recomendações da OMS
A nova diretiva estabelece padrões mais rigorosos para 13 poluentes atmosféricos, entre eles partículas PM 2,5 e PM10, dióxido de nitrogênio e ozônio.
No caso das partículas finas PM 2,5, o limite médio anual da União Europeia deverá cair de 25 microgramas por metro cúbico para 10 microgramas por metro cúbico até 2030.
Apesar do avanço, o valor ainda permanecerá acima da diretriz da Organização Mundial da Saúde, que recomenda uma concentração anual de até 5 microgramas por metro cúbico.
A expectativa apresentada no documento é de que os novos limites contribuam para uma redução de aproximadamente 75% das mortes prematuras relacionadas às partículas PM 2,5 em um período de dez anos.
A aproximação dos padrões europeus às recomendações da OMS representa uma mudança relevante na maneira como os efeitos da poluição atmosférica são incorporados às políticas públicas.
Mesmo com a redução das emissões de poluentes registrada desde 1990, grande parte da população europeia continua exposta a concentrações consideradas prejudiciais.
Em 2023, cerca de 94% das pessoas que viviam em cidades da União Europeia estavam expostas a níveis de PM 2,5 superiores às diretrizes mais recentes da OMS, conforme dados da Agência Europeia do Ambiente reproduzidos no material analisado.
Monitoramento e planejamento obrigatórios
As novas regras reforçam as exigências de monitoramento e modelagem da qualidade do ar. A intenção é ampliar a precisão dos dados disponíveis e permitir que as autoridades identifiquem com mais rapidez as fontes de poluição e os riscos para a população.
Quando as concentrações ultrapassarem os limites legais, os Estados-membros deverão elaborar roteiros e planos de qualidade do ar, com medidas voltadas à redução dos poluentes e à diminuição do período de exposição da população.
A diretiva também estabelece a necessidade de cooperação entre os países para combater a poluição transfronteiriça. Como os contaminantes atmosféricos podem ser transportados por longas distâncias, a resposta depende de ações coordenadas entre governos e regiões.
Outro ponto previsto é o fortalecimento da comunicação pública. Os países deverão ampliar a divulgação de informações sobre as condições do ar, os riscos existentes e as medidas adotadas.
Direito ao ar limpo e à indenização
Uma das principais inovações da legislação está no campo jurídico. Pela primeira vez, os países da União Europeia deverão garantir que pessoas prejudicadas por violações intencionais ou negligentes das normas de qualidade do ar possam buscar reparação.
Cidadãos, organizações e entidades com interesse legítimo também poderão contestar judicialmente a maneira como a diretiva for implementada.
A medida amplia a compreensão de que o ar limpo não é apenas uma meta ambiental, mas um direito relacionado diretamente à saúde, à qualidade de vida e à responsabilidade pública.
O novo mecanismo de indenização tende a aumentar a pressão para que governos adotem sistemas de fiscalização, prevenção e transparência mais eficientes.
Saúde pública e transição ambiental
As regras fazem parte da estratégia europeia de reduzir a poluição do ar, da água e do solo a níveis que não sejam considerados prejudiciais à saúde e ao meio ambiente até 2050.
Além da diretiva de qualidade do ar, a União Europeia adota medidas relacionadas às emissões de gases de efeito estufa, à indústria e aos veículos, incluindo os padrões Euro 7.
Embora a Diretiva (UE) 2024/2881 trate especificamente da qualidade do ar exterior, seus princípios reforçam uma discussão mais ampla sobre a necessidade de monitorar também os ambientes internos.
Escolas, hospitais, escritórios, residências e locais de trabalho possuem dinâmicas próprias de circulação e concentração de contaminantes. Por isso, a proteção da saúde exige uma abordagem integrada, capaz de considerar tanto a poluição atmosférica externa quanto a qualidade ambiental dos espaços fechados.
A experiência europeia demonstra que padrões claros, monitoramento contínuo, informação pública e responsabilização jurídica são instrumentos fundamentais para transformar evidências científicas em políticas de prevenção.
Para o Instituto Safeweb, que atua na articulação de agendas relacionadas à educação energética, sustentabilidade, transição energética e responsabilidade socioambiental, o avanço regulatório europeu contribui para ampliar o debate sobre a qualidade do ar como tema estratégico de saúde pública.
A poluição atmosférica não reconhece fronteiras e seus efeitos não se restringem ao meio ambiente. Eles alcançam sistemas de saúde, produtividade, educação, desenvolvimento econômico e qualidade de vida.
Transformar o direito ao ar limpo em políticas mensuráveis, fiscalizáveis e transparentes representa um dos principais desafios ambientais e sanitários das próximas décadas.