A poluição do ar dentro de residências e ambientes de trabalho também representa um fator de risco para o desenvolvimento de câncer. O alerta integra uma publicação científica associada à quinta edição do Código Europeu Contra o Câncer, iniciativa vinculada à Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), da Organização Mundial da Saúde (OMS). O documento examina a exposição humana a poluentes atmosféricos e destaca a presença de substâncias reconhecidamente cancerígenas, como benzeno e benzo(a)pireno, além de componentes das emissões de motores a diesel. A discussão amplia a percepção de que os riscos da poluição não estão restritos às ruas e aos grandes centros urbanos, alcançando também os espaços fechados onde a população permanece durante parte significativa da rotina.
Entre as principais fontes de contaminação dos ambientes internos estão a fumaça do tabaco, a queima de madeira e carvão em equipamentos domésticos e a entrada de poluentes provenientes da circulação de veículos. Essas fontes podem liberar partículas e compostos químicos prejudiciais à saúde, especialmente quando há ventilação insuficiente ou exposição prolongada. O benzeno, encontrado na fumaça do cigarro e em emissões decorrentes da combustão, possui associação causal estabelecida com determinados tipos de leucemia. A exposição a misturas de poluentes também preocupa pesquisadores devido aos mecanismos de dano celular, incluindo alterações no material genético que podem contribuir para o desenvolvimento de doenças ao longo do tempo.
O material científico ressalta que a prevenção exige atenção tanto às características dos ambientes quanto aos hábitos cotidianos. Evitar o tabagismo em espaços fechados, reduzir a exposição à fumaça de combustíveis sólidos e melhorar as condições de renovação do ar são medidas relevantes para diminuir o contato com agentes nocivos. A ventilação, entretanto, deve considerar a qualidade do ar externo, especialmente em locais próximos a vias de tráfego intenso. A publicação também aborda a importância de alternativas energéticas menos poluentes para aquecimento e preparo de alimentos, além da redução de emissões provenientes do transporte e de outras atividades de combustão.
A relação entre poluição atmosférica e câncer reforça a necessidade de integrar saúde pública, planejamento urbano, habitação e gestão ambiental. Crianças, idosos e pessoas com condições respiratórias preexistentes merecem atenção especial diante dos efeitos gerais da exposição a contaminantes, embora o risco de câncer dependa de fatores como o agente envolvido, a concentração e a duração da exposição. Nesse contexto, a qualidade do ar interno precisa ser considerada em estratégias de prevenção e na elaboração de políticas voltadas à segurança dos ambientes construídos. A abordagem também amplia a responsabilidade de instituições, empresas e gestores públicos na promoção de espaços mais saudáveis.
Ao reunir recomendações sobre a poluição do ar externo e interno, a publicação vinculada ao Código Europeu Contra o Câncer evidencia que a prevenção oncológica também envolve medidas ambientais e coletivas. A adoção de padrões mais rigorosos de qualidade do ar, o incentivo a tecnologias de menor emissão e a disseminação de informações científicas podem contribuir para reduzir exposições evitáveis. O desafio está em transformar o conhecimento sobre os agentes cancerígenos presentes na atmosfera em ações concretas de proteção, reconhecendo que a qualidade do ar respirado dentro de casa, nas escolas e nos locais de trabalho integra as condições fundamentais para a promoção da saúde.
REFERÊNCIA CIENTÍFICA: HOEK, G. et al. European Code Against Cancer, 5th edition – outdoor and indoor air pollution and cancer. Molecular Oncology, v. 20, n. 1, p. 81–95, 2026. DOI: 10.1002/1878-0261.70184. https://doi.org/10.1002/1878-0261.70184