A qualidade do ambiente dentro dos edifícios está ganhando destaque como uma questão de saúde pública. Uma revisão sistemática internacional atribuída aos pesquisadores liderados por Jet Opbroek, apresentada em outubro de 2026 na revista científica Science of the Total Environment, reúne evidências de 74 estudos conduzidos em países de alta renda. A análise investiga como fatores relacionados à qualidade ambiental interna, conhecida pela sigla IEQ (Indoor Environmental Quality), podem influenciar a saúde humana. O tema ganha relevância diante do tempo prolongado que a população permanece em ambientes fechados, estimado em aproximadamente 90% da rotina diária.
Tradicionalmente, as discussões sobre poluição atmosférica concentram-se na qualidade do ar externo, especialmente nas emissões industriais e provenientes do trânsito. Entretanto, residências, escritórios, escolas e outros espaços construídos também podem apresentar condições ambientais desfavoráveis. Segundo a síntese da pesquisa, a exposição a material particulado, dióxido de nitrogênio (NO₂) e partículas ultrafinas em ambientes internos foi associada a alterações da função pulmonar e à obstrução das vias respiratórias. Os resultados analisados também apontam relações entre temperaturas internas inferiores a 18 °C e alterações eletrocardiográficas, além de associações entre umidade, presença de mofo e maior ocorrência de asma em adultos.
A investigação amplia a compreensão dos riscos ao considerar elementos que ultrapassam a contaminação do ar. A exposição ao radônio, gás radioativo de ocorrência natural que pode se acumular em edificações, foi relacionada a maior risco de acidente vascular cerebral nos estudos examinados. A iluminação artificial durante a noite também apareceu associada a alterações do sono e de processos metabólicos. Em contrapartida, a revisão identificou resultados favoráveis em ambientes com melhores condições ambientais. Edifícios com certificações sustentáveis apresentaram, nos estudos relatados, concentrações de material particulado fino (PM2,5) até 57% menores e redução de sintomas associados à chamada Síndrome do Edifício Doente, caracterizada por manifestações como irritação, dores de cabeça e cansaço.
Os resultados reforçam a necessidade de incorporar a qualidade ambiental interna às estratégias de prevenção em saúde, à arquitetura e à gestão das edificações. Soluções como ventilação adequada, sistemas de filtragem de alta eficiência, controle da umidade, manutenção preventiva e projetos de iluminação compatíveis com o ciclo biológico humano podem contribuir para ambientes mais saudáveis, conforme as condições de aplicação. A discussão também alcança a construção civil, a engenharia, o setor imobiliário e os responsáveis pela administração de espaços coletivos, especialmente aqueles frequentados por crianças, idosos, trabalhadores e pessoas com maior vulnerabilidade respiratória.
Ao reunir evidências sobre diferentes componentes do ambiente construído, a revisão aponta para a importância de diretrizes técnicas fundamentadas em pesquisas científicas e de novos estudos capazes de acompanhar os efeitos da exposição ambiental ao longo do tempo. Os resultados apresentados não significam que todos os edifícios ofereçam os mesmos riscos, mas indicam que a qualidade dos espaços internos merece atenção sistemática. A integração entre saúde pública, ciência, engenharia e planejamento das edificações torna-se, assim, uma frente relevante para reduzir exposições potencialmente prejudiciais e melhorar as condições de vida da população.
REFERÊNCIA CIENTÍFICA
OPBROEK, J. et al. Health effects of indoor environmental quality (IEQ): a systematic review of indoor environments in high-income settings. Science of the Total Environment, v. 1052, art. 182158, 15 out. 2026. DOI: 10.1016/j.scitotenv.2026.182158. https://doi.org/10.1016/j.scitotenv.2026.182158