Partículas ultrafinas, gases tóxicos, metais pesados, pesticidas, microplásticos, ruído e temperaturas extremas podem favorecer inflamações, acelerar a aterosclerose e aumentar o risco de infarto, AVC e insuficiência cardíaca

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A poluição ambiental não compromete apenas os pulmões. As substâncias presentes no ar, na água e nos alimentos também podem alcançar o sistema circulatório, provocar inflamações, danificar os vasos sanguíneos e contribuir para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares.
Uma análise publicada na revista científica Clínica e Investigación en Arteriosclerosis apresenta evidências sobre a relação entre a exposição ambiental e o aumento do risco de doença isquêmica do coração, acidente vascular cerebral, hipertensão arterial, insuficiência cardíaca e fibrilação atrial.
O estudo, elaborado pelos pesquisadores Francisco Gomez-Delgado, Manuel Raya-Cruz, Juan L. Romero-Cabrera e Pablo Perez-Martinez, amplia a discussão ao abordar o conceito de exposoma: o conjunto de fatores ambientais aos quais uma pessoa é submetida durante a vida.
Esse conjunto inclui a poluição do ar e da água, o ruído urbano, a iluminação artificial excessiva, as mudanças climáticas, as temperaturas extremas, os incêndios florestais e outras condições capazes de interferir no funcionamento do organismo.
Um ataque silencioso ao sistema cardiovascular
A exposição ambiental pode desencadear uma sequência de alterações biológicas que afetam diretamente o coração e os vasos sanguíneos.
Entre os principais mecanismos estão o aumento do estresse oxidativo, a inflamação sistêmica, a ativação do sistema nervoso simpático e a liberação de hormônios relacionados ao estresse, como o cortisol e as catecolaminas.
Esses processos podem prejudicar a parede interna dos vasos sanguíneos, favorecer a formação de placas de gordura e acelerar a progressão da aterosclerose. Com o passar do tempo, o organismo pode se tornar mais vulnerável a eventos cardiovasculares graves.
Poluição do ar lidera os riscos ambientais
A poluição atmosférica é apontada pela análise como o principal fator ambiental associado às doenças cardiovasculares.
Entre os contaminantes mais preocupantes estão as partículas ultrafinas PM 0,1, o material particulado fino PM 2,5 e as partículas PM 10, além de gases como o dióxido de enxofre e o monóxido de carbono.
Por serem extremamente pequenas, algumas dessas partículas conseguem penetrar profundamente nos pulmões, atravessar barreiras do organismo e desencadear efeitos que não ficam restritos ao sistema respiratório.
A reação provocada pela exposição pode alcançar a circulação sanguínea, aumentar a inflamação sistêmica e contribuir para alterações cardiovasculares. A literatura científica também relaciona a poluição atmosférica a condições como aterosclerose, hipertensão, arritmias, insuficiência cardíaca, infarto e AVC.
Água contaminada também representa perigo
A poluição da água amplia a exposição humana a metais pesados, pesticidas e microplásticos. O contato pode ocorrer diretamente ou por meio da cadeia alimentar, quando substâncias contaminantes se acumulam nos alimentos e chegam ao organismo.
A presença recorrente desses elementos no ambiente desperta preocupação, porque determinadas substâncias podem promover processos inflamatórios, estresse oxidativo e danos aos tecidos.
A análise reforça que os riscos cardiovasculares não devem ser avaliados apenas a partir de fatores individuais, como alimentação, sedentarismo, tabagismo e histórico familiar. O ambiente em que a pessoa vive, trabalha e circula também exerce influência sobre sua saúde.
Ruído e iluminação artificial podem afetar o coração
A poluição sonora e a poluição luminosa também integram o conjunto de exposições ambientais potencialmente prejudiciais.
A exposição contínua ao barulho pode manter o organismo em estado de alerta, ativando mecanismos relacionados ao estresse. Esse processo pode elevar a liberação de cortisol e catecolaminas, influenciar a pressão arterial e sobrecarregar o sistema cardiovascular.
Já o excesso de luz durante a noite pode interferir nos ciclos naturais de sono e vigília. Essa alteração, denominada cronodisrupção, compromete os ritmos biológicos e pode produzir efeitos metabólicos, hormonais e cardiovasculares.
Mudanças climáticas ampliam a ameaça
Temperaturas extremas, ondas de calor, incêndios florestais e processos de desertificação também podem agravar os riscos à saúde.
Além do impacto direto do calor e do frio extremos sobre o organismo, os incêndios liberam grandes quantidades de partículas finas e gases na atmosfera. A fumaça pode percorrer longas distâncias e atingir populações que vivem longe das áreas queimadas.
A combinação entre mudanças climáticas e poluição cria um cenário de exposição prolongada, no qual diferentes ameaças ambientais podem atuar simultaneamente sobre o sistema cardiovascular.
Médicos são chamados a observar o ambiente do paciente
Os autores defendem que os profissionais de saúde ampliem a avaliação clínica e considerem os fatores ambientais presentes na rotina dos pacientes.
Isso significa observar, além dos indicadores tradicionais, aspectos como a proximidade de vias movimentadas ou de áreas industriais, a exposição frequente à fumaça, as condições de trabalho, a qualidade da água, a presença de ruído excessivo e os efeitos das temperaturas extremas.
A análise também destaca a importância de médicos e instituições de saúde participarem da conscientização pública e da defesa de políticas capazes de reduzir a exposição da população aos contaminantes ambientais.
Proteger o ambiente também significa prevenir doenças cardíacas
As evidências apresentadas mostram que a poluição ambiental deve ser tratada como uma questão de saúde pública, e não apenas como um problema ecológico.
Reduzir emissões, monitorar a qualidade do ar e da água, controlar substâncias tóxicas, melhorar o planejamento urbano e enfrentar os impactos das mudanças climáticas são medidas que também podem contribuir para a prevenção de doenças cardiovasculares.
O alerta é direto: aquilo que contamina o ambiente também pode chegar ao sangue, aos vasos e ao coração. Incorporar essa relação às políticas públicas e à prática médica será fundamental para proteger a saúde das gerações atuais e futuras.
Fonte: Gomez-Delgado, F., Raya-Cruz, M., Romero-Cabrera, J. L., & Perez-Martinez, P. Environmental pollution and cardiovascular health. Challenges and new perspectives. Clínica e Investigación en Arteriosclerosis (English Edition), v. 38, n. 3, 500802, 2026. Disponível.
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