A poluição do ar não está restrita às ruas e aos grandes centros urbanos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 2,1 bilhões de pessoas — aproximadamente um quarto da população mundial — ainda cozinham utilizando fogo aberto ou fogões ineficientes alimentados por querosene, biomassa e carvão. Essas práticas geram poluição do ar doméstica e contaminam os ambientes internos onde as famílias passam parte importante do dia, transformando a qualidade do ar dentro de casa em uma questão relevante de saúde pública.
O impacto dessa exposição aparece de forma direta nos indicadores de mortalidade. A OMS atribui à poluição do ar doméstica quase 3,2 milhões de mortes prematuras por ano, relacionadas a doenças como pneumonia, doença pulmonar obstrutiva crônica, câncer de pulmão e enfermidades cardiovasculares. Mulheres e crianças estão entre os grupos mais expostos, especialmente porque, em muitos contextos, permanecem por mais tempo próximas às fontes de queima utilizadas para cozinhar, aquecer ou iluminar os ambientes.
Quando a poluição doméstica é analisada em conjunto com a poluição externa, o cenário se torna ainda mais amplo. Em 2021, a OMS estimou 6,6 milhões de mortes atribuíveis à poluição do ar, considerando as exposições ambiental e doméstica. No mesmo contexto, cerca de 2 bilhões de pessoas dependiam principalmente de combustíveis poluentes para cozinhar, aquecer e iluminar suas residências, o que evidencia a dimensão global do problema e sua relação com condições de infraestrutura, energia e desigualdade de acesso a tecnologias mais limpas.
A prevenção envolve mudanças que vão além do comportamento individual. A própria OMS aponta a transição para combustíveis e tecnologias limpas de cozinha, a ventilação adequada e o monitoramento da qualidade do ar como medidas essenciais para reduzir a carga de doenças respiratórias. O tema também se conecta a políticas de saúde, energia, habitação, sustentabilidade e qualidade de vida, já que a exposição ocorre justamente em um dos ambientes de maior permanência cotidiana: a própria residência.
Os dados reforçam uma mensagem estratégica para governos, instituições e sociedade: melhorar a qualidade do ar interno deve integrar as agendas de prevenção e saúde pública. Reduzir o uso de combustíveis altamente poluentes, ampliar o acesso a soluções limpas e criar ambientes internos mais seguros pode contribuir para diminuir riscos respiratórios e cardiovasculares. A poluição doméstica, embora menos visível do que a fumaça nas ruas, permanece como um problema global que exige políticas estruturadas e atenção contínua.
FONTES: Organização Mundial da Saúde (OMS) — Household air pollution (ficha técnica); OMS — Riscos à saúde da poluição do ar doméstica; OMS — Portal de dados sobre poluição do ar.