O Brasil e o mundo vivem sob o alarde de uma transição energética celebrada como a salvação da humanidade. Vários setores, inclusive de energia, vendem os biocombustíveis como a solução definitiva para o futuro do planeta. No entanto, a ciência acaba de desmascarar uma ilusão perigosa: a troca de combustíveis fósseis por biocombustíveis resolve apenas o balanço de carbono do planeta, mas deixa a saúde pública exatamente onde estava, na UTI. A verdade física é brutal e inegável: a atmosfera não possui calculadora, não faz inventário, não diferencia moléculas; e o corpo humano não lê relatórios de emissões. Para o pulmão e o coração, é irrelevante se a molécula de metano ou de dióxido de carbono veio de um poço de petróleo ou de um aterro sanitário; uma vez na atmosfera, a toxicidade é idêntica e o dano biológico é implacável.
Estudos internacionais de alto impacto fundamentam este alerta. A revista Scientific Reports (Mendoza-Cano et al., 2023) confirmou, em um estudo ecológico de 73 países, a associação direta e estatisticamente significativa entre as emissões de metano e o aumento da carga de doenças cardiovasculares, medida em anos de vida ajustados por incapacidade, os chamados DALYs. Para cada aumento unitário nas emissões de metano ligadas à energia, a carga de doenças cardiovasculares cresceu. O metano, independentemente de sua origem, é um fator de risco cardiovascular real, mediado pela formação de ozônio troposférico, material particulado fino, estresse oxidativo e inflamação sistêmica que favorece a aterosclerose.
Mais alarmante ainda, pesquisas publicadas na Particle and Fibre Toxicology (Unosson et al., 2021) provam, por meio de ensaios clínicos controlados em voluntários humanos, que o biodiesel produz efeitos cardiovasculares semelhantes aos do petrodiesel fóssil, incluindo disfunção vasomotora, maior formação de trombos e comprometimento da fibrinólise. A origem biogênica não confere imunidade biológica; o selo verde do combustível não limpa o ar que inflama as artérias. A distinção entre fóssil e biogênico é puramente contábil, baseada na capacidade de acúmulo de carbono novo na atmosfera (Field, 2021): o fóssil desenterra carbono e o acumula permanentemente; o biogênico apenas recicla o que já circula. Para o equilíbrio térmico do planeta, essa diferença é vital. Para a saúde pública, ela é irrelevante.
A poluição do ar é hoje o fator ambiental mais crítico para a mortalidade mundial (Al-Kindi et al., 2020), superando a soma de todos os outros riscos ambientais conhecidos, e não existe nível seguro de exposição a partículas finas, as chamadas PM2,5. O perigo está dentro de nossas casas e, sobretudo, dentro de nossos locais de trabalho: equipamentos a gás liberam coquetéis de poluentes nocivos, como monóxido de carbono, metano, óxido nitroso, dióxido de nitrogênio, formaldeído e benzeno, ambos carcinógenos, sendo responsáveis por 12,7% de todos os casos de asma infantil nos Estados Unidos (Seltenrich, 2024). Crianças e adolescentes são particularmente vulneráveis, com impactos no neurodesenvolvimento e na saúde mental (Nunes e Cunha, 2025). O dano é real, mensurável e, sobretudo, silencioso: empresas, órgãos públicos e, de forma alarmante, os próprios hospitais operam sob o patamar de insalubridade por conta do contato contínuo com estes gases e poluentes internos que, até hoje, não são medidos nem monitorados. Trabalhadores da saúde, pacientes e servidores respiram diariamente, dentro de unidades de atendimento, concentrações de poluentes que podem superar os padrões de segurança do ar externo, sem que qualquer instrumento de medição ou vigilância os proteja. Essa omissão regulatória não é apenas uma falha técnica; é uma violação do dever constitucional.
É aqui que o cenário se torna verdadeiramente explosivo: estamos diante do início de uma grande corrida trabalhista por insalubridade. Milhões de trabalhadores brasileiros passam anos expostos, em seus ambientes laborais, a gases e poluentes que jamais foram medidos, monitorados ou declarados pelos empregadores. A Norma Regulamentadora 15 (NR-15) já reconhece, no ambiente de trabalho, a toxicidade de agentes como o monóxido de carbono, o dióxido de carbono, o metano, formaldeído, benzeno e o óxido nitroso, fixando limites de tolerância para o pagamento do adicional de insalubridade. Porém, se estes mesmos poluentes existem em ambientes internos que nunca foram aferidos, a base de cálculo da insalubridade está sendo ignorada na prática. O resultado é uma bomba-relógio jurídica: trabalhadores que hoje descobrem, por meio de medições independentes e de evidências científicas, que trabalharam durante anos em condições insalubres, sem o devido adicional nem a devida proteção. Cada um desses trabalhadores é um potencial autor de ação trabalhista contra a empresa, e, a cada laudo técnico que comprova a exposição, o passivo cresce. Some-se a isso a necessidade urgente de correção dos acordos e convenções coletivas de trabalho, muitos firmados sem medição de poluentes nem evidência científica, com cláusulas de insalubridade negociadas com base em laudos defasados ou na ausência absoluta de dados. Somados, os passivos por insalubridade, por danos morais e por doenças ocupacionais podem ser o golpe financeiro que fecha empresas inteiras, sobretudo pequenas e médias, que nunca tiveram condições de medir o próprio ar. O custo de não corrigir é a judicialização em massa; o custo de corrigir, com medição e transparência, é administrável e previsível.
Que fique claro, desde já, para evitar qualquer leitura apressada: esta análise não é contra a transição energética. Pelo contrário, a substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis é uma necessidade inadiável para o equilíbrio climático do planeta, e o Brasil tem papel estratégico nesse processo. O que esta matéria denuncia é outra coisa: a ilusão perigosa de que a troca da origem do combustível, por si só, resolve o problema da saúde pública. A transição é necessária para o clima, mas é insuficiente para a saúde. São duas agendas que precisam caminhar juntas, com a mesma seriedade e o mesmo rigor científico. Defender a saúde pública não é sabotar a descarbonização; é exigir que ela seja completa, honesta e verdadeiramente comprometida com a vida humana e com a dignidade do trabalhador brasileiro.
Referências:
Mendoza-Cano O, et al. Scientific Reports. 2023;13:13515. DOI: 10.1038/s41598-023-40444-7.
Unosson J, et al. Particle and Fibre Toxicology. 2021;18:22. DOI: 10.1186/s12989-021-00412-3.
Field JL. Frontiers in Climate. 2021;3:603239. DOI: 10.3389/fclim.2021.603239.
Al-Kindi SG, et al. Nature Reviews Cardiology. 2020;17:656-672. DOI: 10.1038/s41569-020-0371-2.
Seltenrich N. Environmental Health Perspectives. 2024;132(2):022001. DOI: 10.1289/EHP14180.
Nunes ML, Cunha AJLA. Jornal de Pediatria. 2025;101(Supl 1). DOI: 10.1016/j.jped.2024.10.005.
Adm. Alexandre de Souza Tavares, PhD
Doutor em Transição Energética e Gestão da Informação
Diretor de PD&I do Instituto Safeweb, membro do BioHub Tecnopuc
Presidente da Comissão Científica do II Fórum Nacional de Educação Energética, Gases e Poluentes Atmosféricos Internos
IIFÓRUM NACIONAL DE EDUCAÇÃO ENERGÉTICA
EDIÇÃO : Gases de Efeito Estufa e Poluentes Atmosféricos Internos
DATA : 6 e 27 de agosto de 2026
LOCAL: R. Oswaldo de Lia Pires, 100, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 90810-240
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