A qualidade do ar dentro de casas e ambientes de trabalho ganha uma dimensão ainda mais sensível quando envolve mulheres grávidas e crianças. Uma meta-análise publicada na revista científica PLOS ONE identificou associação entre a exposição materna ao benzeno durante a gestação e maior risco de leucemia linfoblástica aguda na infância. A substância pode estar relacionada a situações comuns do cotidiano, como contato com solventes, tintas, combustíveis e derivados de petróleo.
O trabalho analisou 29 estudos epidemiológicos que, em conjunto, reuniram mais de 16 mil crianças com a doença e aproximadamente 1,4 milhão de crianças utilizadas como controles. Os resultados chamam atenção principalmente porque parte das exposições avaliadas pode ocorrer não apenas em atividades profissionais, mas também no ambiente doméstico.
Segundo os dados apresentados na meta-análise, crianças cujas mães tiveram contato com solventes durante a gravidez apresentaram aumento de 25% no risco observado. Para exposição a tintas, o crescimento foi de 23%. Entre as categorias analisadas, o contato materno com combustíveis e derivados de petróleo apresentou a associação mais elevada, com aumento de 42%.
Os resultados devem ser interpretados como associações epidemiológicas, e não como demonstração de que uma exposição isolada necessariamente provocará câncer. Ainda assim, a dimensão da população estudada e a convergência das evidências reforçam a importância de medidas preventivas, sobretudo durante períodos de maior vulnerabilidade, como a gestação e os primeiros anos de vida.
O risco pode estar mais perto do que parece
O debate também chama atenção para uma questão que frequentemente passa despercebida: a poluição do ar não está restrita às ruas, às indústrias ou aos grandes centros urbanos. Dentro de residências, substâncias químicas podem ser liberadas durante pinturas e reformas, pelo uso de determinados solventes e produtos, pela presença de combustíveis armazenados, por garagens anexas e pela fumaça do cigarro.
Quando esses contaminantes são liberados em ambientes fechados e com ventilação inadequada, aumenta a preocupação com a qualidade do ar respirado pelos ocupantes. Gestantes e crianças pequenas merecem atenção especial diante da vulnerabilidade própria dessas fases da vida.
A discussão sobre qualidade do ar interior também integra uma agenda mais ampla de saúde ambiental. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a poluição do ar doméstico como um importante problema de saúde pública mundial, especialmente em contextos nos quais a população permanece exposta a contaminantes dentro das próprias residências.
Outro estudo citado no material de referência, uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 na BMC Infectious Diseases, analisou a relação entre exposição à poluição do ar em ambientes internos e infecções respiratórias agudas em crianças menores de cinco anos em países de baixa e média renda. Embora investigue um desfecho diferente daquele relacionado ao benzeno e à leucemia infantil, o trabalho amplia a atenção científica sobre os impactos da qualidade do ar interior na saúde das crianças.
Prevenção começa pelo ambiente
As evidências reforçam a importância de medidas práticas de prevenção. Durante a gravidez, reduzir o contato desnecessário com solventes, tintas, combustíveis e outros produtos capazes de liberar compostos químicos é uma precaução relevante. Adiar pinturas e reformas quando possível, manter boa ventilação, evitar o armazenamento inadequado de combustíveis e solventes dentro da residência e preservar ambientes livres da fumaça do cigarro estão entre as medidas indicadas no material analisado.
Nos locais de trabalho em que o contato com substâncias químicas faz parte da atividade profissional, o uso adequado de equipamentos de proteção e o cumprimento das normas de segurança ocupacional tornam-se ainda mais importantes.
Para o Instituto Safeweb, o tema reforça a necessidade de ampliar o debate público sobre qualidade do ar em ambientes internos, saúde ambiental, educação e prevenção. A transição para ambientes mais saudáveis não depende apenas das grandes políticas ambientais ou energéticas: envolve também escolhas sobre tecnologias, produtos, ventilação, fontes de energia e padrões de exposição presentes no cotidiano das famílias.
A discussão ganha relevância dentro de uma visão de sustentabilidade que conecta meio ambiente e saúde humana. Casas, escolas, hospitais e locais de trabalho fazem parte dessa agenda. Conhecer os contaminantes presentes nesses espaços, reduzir exposições evitáveis e estimular ambientes internos mais seguros são ações que podem integrar políticas de saúde pública, educação ambiental e responsabilidade socioambiental.
Quando evidências científicas apontam riscos associados a exposições presentes no cotidiano, a informação torna-se uma ferramenta de prevenção. Para gestantes, famílias, profissionais de saúde, empresas e gestores públicos, compreender a qualidade do ar que se respira dentro dos ambientes é também uma forma de ampliar o cuidado com as próximas gerações.
Fontes consultadas
• Zhou Y, Zhang S, Li Z, Zhu J, Bi Y, Bai Y, Wang H. Maternal Benzene Exposure during Pregnancy and Risk of Childhood Acute Lymphoblastic Leukemia: A Meta-Analysis of Epidemiologic Studies. PLOS ONE, 2014. DOI: 10.1371/journal.pone.0110466.
• Desye B, Geto AK, Daba C, Berihun G, Berhanu L. Indoor air pollution exposure and acute respiratory infection among under-five children in low- and middle-income countries: a systematic review and meta-analysis. BMC Infectious Diseases, 2025. DOI: 10.1186/s12879-025-12148-y.
• Organização Mundial da Saúde (OMS). Household air pollution: fact sheet.
• Documento-base “Exposição ao benzeno na gravidez”, fornecido para elaboração da pauta.