Análise de 17 estudos científicos relaciona contaminantes do ar, da água e do solo a doenças respiratórias, cardiovasculares, metabólicas, reprodutivas, neurológicas e zoonóticas

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A poluição ambiental não compromete apenas a qualidade do ar ou a integridade dos ecossistemas. Seus efeitos podem atingir simultaneamente a saúde humana, a vida animal e os ambientes naturais que sustentam a sociedade.
Essa é a principal conclusão de uma revisão narrativa publicada em 31 de maio de 2026 na Revista FT. O trabalho analisou 17 estudos científicos publicados, em sua maioria, entre 2015 e 2025, reunindo evidências sobre impactos respiratórios, cardiovasculares, metabólicos, reprodutivos, neurológicos, psicológicos e zoonóticos associados à poluição.
Intitulado “Impactos da poluição ambiental na saúde: uma revisão narrativa sob a perspectiva da Saúde Única”, o artigo foi produzido por Caroline Pereira Lopes, Érica Kelly Moreira Godinho, Geovanna Kethelen Cabral, Katielly da Silva Gonçalves, Luan Vinícius Araújo de Morais, Mariana Fernandes de Almeida e Joice de Freitas Fonseca, vinculados ao Centro Universitário Una, em Betim, Minas Gerais.
A pesquisa adota o conceito de Saúde Única, conhecido internacionalmente como One Health. A Organização Mundial da Saúde define essa abordagem como uma estratégia integrada para equilibrar e otimizar a saúde das pessoas, dos animais, das plantas e dos ecossistemas, reconhecendo que essas dimensões são interdependentes.
A perspectiva rompe com a ideia de que os problemas ambientais podem ser enfrentados separadamente por médicos, veterinários, pesquisadores, gestores públicos ou órgãos ambientais. Para a Saúde Única, a prevenção depende da cooperação entre diferentes setores e do acompanhamento conjunto dos riscos presentes no ar, na água, no solo, nos alimentos, nos animais e nas populações humanas.
A própria OMS inclui a poluição atmosférica, a contaminação da água e as mudanças climáticas entre os temas diretamente relacionados à Saúde Única. A entidade sustenta que respostas integradas são necessárias para prevenir, detectar e enfrentar ameaças que ultrapassam os limites tradicionais dos sistemas de saúde.
A revisão científica mostra que os impactos da poluição não se limitam aos pulmões. Embora as evidências mais consolidadas estejam relacionadas às doenças respiratórias e cardiovasculares, os estudos analisados também identificaram associações com alterações metabólicas, reprodutivas, neurológicas e psicológicas.
No sistema respiratório, poluentes como o material particulado fino — PM₂.₅ e PM₁₀ —, o dióxido de nitrogênio, o ozônio e outros contaminantes atmosféricos estão associados à redução da função pulmonar e ao agravamento de asma, bronquite, doença pulmonar obstrutiva crônica, infecções respiratórias e outros problemas.
Uma metanálise publicada em 2024 avaliou 50 estudos de alta qualidade e encontrou associações consistentes entre diferentes poluentes atmosféricos e desfechos respiratórios. Os resultados também indicaram maior suscetibilidade entre crianças em comparação com adultos.
A Organização Mundial da Saúde explica que partículas muito pequenas, especialmente o PM₂.₅, conseguem penetrar profundamente nos pulmões e alcançar a corrente sanguínea. Essa exposição pode provocar efeitos respiratórios e cardiovasculares, incluindo aumento do risco de acidente vascular cerebral, doenças cardíacas, câncer de pulmão e doença pulmonar obstrutiva crônica.
No sistema cardiovascular, a exposição prolongada pode favorecer processos inflamatórios e oxidativos que afetam vasos sanguíneos, coração e outros órgãos. Uma revisão de revisões sistemáticas e metanálises publicada na revista Environmental Research identificou um conjunto amplo de efeitos associados à poluição atmosférica, reforçando que o problema deve ser compreendido como um fator sistêmico de saúde.
A exposição ambiental também pode repercutir sobre a saúde mental e o sistema nervoso. A revisão narrativa relaciona contaminantes atmosféricos, metais pesados, pesticidas e outros agentes tóxicos ao aumento de quadros de ansiedade, depressão e doenças neurodegenerativas.
Uma revisão publicada em 2024 na revista Frontiers in Psychiatry analisou os possíveis efeitos da poluição ambiental e dos eventos climáticos extremos sobre a saúde mental. O trabalho identificou associações entre concentrações elevadas de PM₂.₅, dióxido de nitrogênio e dióxido de enxofre e o agravamento de sintomas de ansiedade, depressão e esquizofrenia.
Os mecanismos investigados incluem estresse oxidativo, inflamação sistêmica, alterações na barreira hematoencefálica e desregulação epigenética. Os pesquisadores também encontraram associações entre poluição sonora, excesso de luz artificial e maior risco de transtornos neurodegenerativos.
Esses resultados, entretanto, devem ser interpretados com cautela. A própria revisão sobre Saúde Única reconhece que as evidências relacionadas aos sistemas respiratório e cardiovascular são mais robustas, enquanto as pesquisas sobre saúde mental, reprodução e zoonoses ainda apresentam menor uniformidade metodológica e permanecem em processo de consolidação.
A exposição prolongada à poluição atmosférica também aparece associada ao desenvolvimento de alterações metabólicas.
Uma revisão sistemática e metanálise conduzida por um painel de especialistas avaliou 21 estudos sobre poluição relacionada ao tráfego e diabetes. O trabalho classificou como moderada a evidência de associação entre a exposição prolongada e o aumento do risco de diabetes na população adulta.
Os mecanismos estudados envolvem inflamação sistêmica, estresse oxidativo e alterações na resistência à insulina. Isso não significa que a poluição seja a única responsável pelo desenvolvimento da doença, mas indica que a qualidade ambiental pode integrar o conjunto de fatores que influenciam o risco metabólico.
Os efeitos ambientais também podem começar antes do nascimento. A revisão científica aponta associações entre a exposição pré-natal à poluição atmosférica e alterações no crescimento e no desenvolvimento fetal.
Um estudo realizado na Noruega avaliou a relação entre poluição atmosférica e desfechos do nascimento, contribuindo para a compreensão dos possíveis efeitos da exposição materna sobre o peso, o comprimento e outras condições relacionadas ao desenvolvimento do bebê.
Outra revisão sistemática destaca que o material particulado pode desencadear inflamação placentária, estresse oxidativo e outros processos capazes de interferir no ambiente intrauterino.
Os estudos não indicam que toda exposição resultará necessariamente em alterações fetais. Eles mostram, no entanto, que a qualidade do ar deve ser considerada nas políticas de proteção à gestante, à criança e à saúde materno-infantil.
A abordagem da Saúde Única também permite compreender como a degradação ambiental favorece a circulação de doenças entre animais e seres humanos.
A leptospirose é um dos exemplos apresentados. A doença é causada por bactérias do gênero Leptospira e pode ser transmitida pelo contato com água ou lama contaminadas pela urina de animais infectados, principalmente roedores.
A Organização Pan-Americana da Saúde informa que enchentes, água estagnada e falta de saneamento podem ampliar o risco de leptospirose. A entidade alerta que a doença tem potencial epidêmico após períodos de chuva intensa ou inundações e representa um problema simultaneamente humano, veterinário e ambiental.
Durante as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, a OPAS e a Organização Mundial da Saúde destacaram que a exposição à água contaminada poderia aumentar a ocorrência de doenças diarreicas agudas e infecções por leptospirose.
Uma revisão sistemática sobre os fatores ambientais e ocupacionais relacionados à doença encontrou aumento do risco associado à exposição a enchentes, lama, água parada, fontes naturais de água e contato com animais infectados.
Essas evidências mostram que combater uma zoonose não depende apenas do diagnóstico e do tratamento dos pacientes. Também exige saneamento, drenagem urbana, controle de resíduos, vigilância animal, monitoramento ambiental e redução das desigualdades territoriais.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, o ambiente pode atuar como reservatório de substâncias, espaço de processos químicos e ecológicos e meio de transferência de agentes capazes de afetar animais e seres humanos. Mudanças no uso do solo, perda de biodiversidade, alterações climáticas e poluição interferem diretamente nessa relação.
A poluição hídrica compromete a qualidade da água, a vida aquática, a produção de alimentos e a saúde das comunidades. A contaminação do solo pode introduzir metais pesados, pesticidas e outras substâncias na cadeia alimentar. A poluição atmosférica, por sua vez, circula entre cidades, áreas rurais, ambientes internos e regiões distantes das fontes originais de emissão.
Por isso, respostas concentradas apenas no atendimento médico são insuficientes. O tratamento das doenças permanece indispensável, mas precisa ser acompanhado por políticas capazes de reduzir a exposição aos contaminantes antes que os danos aconteçam.
A revisão conclui que crianças, idosos e populações que vivem em países de baixa e média renda tendem a sofrer os efeitos mais severos da poluição. Essas comunidades frequentemente convivem com maior exposição ambiental e menor acesso a saneamento, moradia adequada, atendimento médico e sistemas de proteção.
No caso da poluição atmosférica externa, a OMS estima que 89% das mortes prematuras atribuídas a essa exposição, em 2019, ocorreram em países de baixa e média renda.
As condições urbanas também exercem influência direta. Segundo a OMS, o desenho das cidades pode aumentar a exposição à poluição atmosférica, ao ruído, às ilhas de calor e a substâncias químicas, com possíveis impactos cardiovasculares, pulmonares, mentais, neurológicos e reprodutivos.
Os autores da revisão afirmam que não existe um nível totalmente seguro de exposição à poluição no conjunto de evidências analisado. Essa conclusão deve ser compreendida dentro do escopo do trabalho e não significa que todos os poluentes apresentem o mesmo risco, na mesma concentração ou para todas as pessoas.
As diretrizes globais de qualidade do ar da OMS estabelecem valores orientadores para os principais poluentes. Esses parâmetros funcionam como referências baseadas em evidências para reduzir a exposição e proteger a saúde, mas a própria entidade registra que os efeitos adversos podem ocorrer em concentrações mais baixas do que se compreendia anteriormente.
Portanto, atingir um limite regulatório não deve significar o abandono das políticas de redução. Quanto menor a exposição populacional, maior tende a ser o benefício para a saúde pública.
O artigo científico também apresenta limitações que precisam ser consideradas. Por se tratar de uma revisão narrativa, o estudo não calculou o tamanho dos efeitos nem realizou uma avaliação quantitativa da heterogeneidade entre os trabalhos selecionados.
Os autores reconhecem que a inclusão do Google Acadêmico pode ter incorporado trabalhos com diferentes níveis de rigor editorial. Também apontam que a estratégia de busca pode ter sub-representado estudos específicos sobre saúde animal e ecotoxicologia.
Dessa forma, os resultados oferecem uma visão ampla e integrada do problema, mas não substituem revisões sistemáticas específicas para cada tipo de poluente, exposição ou doença.
A principal contribuição da perspectiva da Saúde Única está na articulação entre ciência, gestão ambiental e políticas públicas.
O enfrentamento da poluição exige monitoramento integrado da qualidade do ar, da água e do solo, além de vigilância epidemiológica, acompanhamento da saúde animal, investimentos em saneamento, planejamento urbano, controle de emissões e proteção às populações mais vulneráveis.
A OMS considera que compromissos permanentes com a Saúde Única podem reduzir a fragmentação dos sistemas, melhorar a prevenção e tornar mais eficiente o uso dos recursos disponíveis.
A preservação ambiental, portanto, não pode ser tratada como uma agenda separada da saúde. Proteger ecossistemas, reduzir a exposição a contaminantes e garantir água, ar e alimentos seguros são medidas que interferem diretamente na qualidade de vida, na prevenção de doenças e na capacidade de resposta das cidades.
Sob essa perspectiva, a saúde humana não começa apenas nos hospitais ou consultórios. Ela começa na qualidade do ambiente em que as pessoas e os animais vivem, trabalham, circulam, produzem alimentos e constroem suas comunidades.
Fonte: Lopes, C. P., et al. Impactos da poluição ambiental na saúde: uma revisão narrativa sob a perspectiva da saúde única. RevistaFT, v. 30, n. 158, 2026. DOI: https://doi.org/10.69849/ejhca782. Disponível em: https://www.revistaft.com/ft/article/view/1189. Acesso em: 17 jul. 2026.
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