O Rio Grande do Sul entrou na categoria de risco para doenças respiratórias após um aumento expressivo nos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Dados divulgados pela Fiocruz e pela Secretaria Estadual da Saúde apontam que o Estado já registra centenas de hospitalizações e 237 mortes relacionadas a síndromes respiratórias em 2026. A Influenza A segue como o vírus de maior circulação, enquanto o Vírus Sincicial Respiratório (VSR) também preocupa especialistas, especialmente entre crianças e idosos.
O avanço das doenças respiratórias reacende discussões sobre fatores que agravam problemas pulmonares e reduzem a qualidade do ar em ambientes internos. Entre eles, o uso de fogões a gás vem ganhando atenção internacional devido à emissão de poluentes tóxicos associados a crises respiratórias, asma e até alguns tipos de câncer.
Fogões a gás entram no centro do debate sobre saúde respiratória
Pesquisas recentes das universidades de Stanford e Purdue, nos Estados Unidos, apontam que fogões a gás podem liberar substâncias nocivas em níveis elevados dentro das residências, principalmente em locais com pouca ventilação.
Segundo estudo publicado pela Universidade de Stanford no periódico PNAS Nexus, os fogões a gás são responsáveis por cerca de 25% da exposição total ao dióxido de nitrogênio (NO₂) entre pessoas que cozinham regularmente. Em ambientes fechados, os níveis do poluente podem ultrapassar os limites recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
O dióxido de nitrogênio é um gás irritante que afeta diretamente o sistema respiratório. A exposição frequente pode provocar tosse, dificuldade para respirar, bronquite, agravamento da asma e maior predisposição a infecções respiratórias.
Além do NO₂, os aparelhos também liberam benzeno, substância associada a casos de leucemia e outros distúrbios sanguíneos. Pesquisadores de Stanford alertam que crianças expostas continuamente a esses compostos apresentam maior risco de desenvolver problemas respiratórios e doenças crônicas ao longo da vida.
Impactos vão além da cozinha
Os estudos mostram que os efeitos da poluição causada pelos fogões não ficam restritos ao ambiente de preparo dos alimentos. De acordo com o professor Robert B. Jackson, da Escola de Sustentabilidade Stanford Doerr, os níveis de poluentes podem permanecer elevados por horas após o uso do equipamento, atingindo quartos e outros cômodos da residência.
Pesquisadores da Universidade Purdue também identificaram que fogões a gás podem emitir partículas nocivas em quantidade até 100 vezes superior às liberadas pelo escapamento de automóveis durante determinados processos de combustão.
O tema já influencia políticas públicas internacionais. Em Nova York, uma legislação aprovada em 2023 prevê restrições ao uso de fogões a gás em grande parte das novas construções a partir de 2026, priorizando equipamentos elétricos como alternativa para reduzir emissões e melhorar a qualidade do ar interno.
Atenção redobrada em períodos de alta de vírus respiratórios
Especialistas destacam que, em momentos de aumento da circulação de vírus respiratórios, fatores ambientais podem intensificar quadros clínicos e elevar o número de hospitalizações.
Crianças, idosos, pessoas com doenças cardíacas e pacientes com asma ou bronquite estão entre os grupos mais vulneráveis aos efeitos da má qualidade do ar em ambientes fechados.
Com o avanço dos casos respiratórios no Rio Grande do Sul e em outras regiões do país, especialistas reforçam que a prevenção depende não apenas da vacinação e dos cuidados individuais, mas também da atenção à qualidade do ar dentro das residências.