A poluição do ar em ambientes fechados é um dos riscos ambientais mais subestimados atualmente. Ao contrário da poluição ao ar livre, que recebe atenção constante de políticas públicas e de monitoramento, os ambientes internos (residências, escritórios, escolas e indústrias) podem concentrar contaminantes químicos, biológicos e físicos.
Poluentes e anomalias congênitas
Entre os contaminantes mais preocupantes presentes nesses ambientes estão os compostos orgânicos voláteis (COVs), o formaldeído, os ftalatos, os retardantes de chama bromados, as micotoxinas de fungos e os metais pesados provenientes de tintas, revestimentos e materiais de construção.
A exposição a essas substâncias durante períodos críticos do desenvolvimento intrauterino (gestação) está associada ao risco de anomalias congênitas. Pesquisas têm demonstrado que certos poluentes atuam como desreguladores endócrinos, ou seja, alteram o funcionamento normal dos hormônios do feto em desenvolvimento. Desta forma, interferem nos processos de organogênese e de diferenciação celular do embrião, o que pode resultar em malformações cardíacas, defeitos do tubo neural, anomalias craniofaciais e alterações esqueléticas, dependendo do agente tóxico e do momento da exposição.
Efeitos sobre o neurodesenvolvimento
No campo do neurodesenvolvimento, também há preocupação. A exposição pré-natal e perinatal a substâncias como o formaldeído, pesticidas organofosforados volatilizados do interior de residências, chumbo e manganês liberados por materiais de construção, além de partículas finas geradas por fogões a lenha ou por sistemas de aquecimento ineficientes, tem sido associada ao transtorno do espectro autista (TEA), transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), redução do quociente de inteligência e atrasos no desenvolvimento da linguagem e das funções executivas.
O cérebro fetal, em plena fase de sinaptogênese e mielinização, é extraordinariamente vulnerável a interferências neurotóxicas que, mesmo em doses consideradas baixas, podem reprogramar circuitos neurais de forma permanente.
Poluição do ar interior e infertilidade
A relação entre a poluição em ambientes fechados e a infertilidade constitui outro campo de investigação recente. Os ftalatos e o bisfenol A (BPA), amplamente presentes em plásticos, revestimentos e materiais de construção, exercem efeitos antiandrogênicos e estrogênicos que comprometem tanto a espermatogênese quanto a função ovariana.
Estudos epidemiológicos têm associado altos níveis de exposição a esses compostos à redução da concentração e da motilidade dos espermatozoides nos homens, bem como a ciclos menstruais irregulares, endometriose e falhas de implantação do embrião nas mulheres.
Considerações finais
Diante desse cenário, é muito importante que políticas de construção e uso de materiais, ventilação de ambientes e monitoramento da qualidade do ar interior sejam tratadas com a mesma seriedade dispensada à poluição atmosférica externa — sobretudo em contextos de vulnerabilidade, como gestações planejadas e infância.
Referências bibliográficas
Samsam, A. et al. (2024). Association of prenatal and postnatal exposure to air pollution with clinically diagnosed attention deficit hyperactivity disorder: a systematic review. Frontiers in Public Health, 12.
https://www.frontiersin.org/journals/public-health/articles/10.3389/fpubh.2024.1396251/full
Vrijheid, M. et al. (2011). Ambient Air Pollution and Risk of Congenital Anomalies: A Systematic Review and Meta-analysis. Environmental Health Perspectives, 119(5), 598–606.
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3094408/
Sobre a autora
A Dra. Lavínia Schüler-Faccini é médica e possui título de Especialista em Genética Médica pela Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica. Realizou seu mestrado e doutorado no Programa de Genética e Biologia Molecular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Realizou pós-doutorado no Hospital for Sick Children, em Toronto, Canadá, na área de Teratogênese (agentes ambientais que podem causar anomalias congênitas). Posteriormente, realizou estágio sênior na University of London, em Londres, Inglaterra, na área de Genética de Populações.
É Professora Titular Permanente do Programa de Pós-Graduação em Genética e Biologia Molecular e do Programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e do Adolescente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, além de atuar no Serviço de Genética Médica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.
Suas áreas de investigação concentram-se em Vigilância Epidemiológica, Prevenção e Cuidado em Anomalias Congênitas, Genética Médica Populacional e Teratogênese. Foi cofundadora e é uma das coordenadoras do Sistema Nacional de Informação sobre Teratógenos (SIAT), com sede em Porto Alegre, desde 1990. Coordena o Projeto Piloto de Vigilância de Anomalias Congênitas em diferentes regiões do país.
Foi chefe do Serviço de Genética Médica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, presidente da Sociedade Brasileira de Genética Médica, vice-diretora do Instituto de Biociências da UFRGS e presidente da Rede Latino-Americana de Genética Humana (RELAGH). Atualmente é membro do colegiado do Estudo Colaborativo Latino-Americano de Malformações Congênitas (ECLAMC).
Recebeu o Prêmio Pesquisadora Gaúcha na área de Ciências Biológicas, concedido pela FAPERGS, em 2022. Possui mais de 200 artigos publicados em revistas científicas indexadas e revisadas por pares, tendo orientado mais de 50 alunos de mestrado e doutorado, além de mais de 50 estudantes de iniciação científica. Seu índice H é 32 (Web of Science) e é pesquisadora nível A do CNPq.