Uma pesquisa científica realizada na cidade de Dalian, na China, apresenta novas evidências sobre os riscos da poluição atmosférica dentro das residências e sua relação com o desenvolvimento de doenças. Publicado em janeiro de 2026 na revista BMC Public Health, o estudo acompanhou durante um ano a qualidade do ar em 20 moradias, sendo dez localizadas em áreas urbanas e dez em regiões rurais. Ao relacionar os dados ambientais com registros de saúde da população, os pesquisadores identificaram associações entre a exposição a poluentes domésticos e diferentes problemas cardiovasculares, respiratórios e metabólicos. Os resultados chamam a atenção para uma questão frequentemente negligenciada: o ambiente doméstico também pode representar uma fonte significativa de exposição à poluição do ar.
Entre os contaminantes analisados, o monóxido de carbono (CO) apresentou resultados preocupantes em relação à saúde cardiovascular. Segundo os dados apresentados na pesquisa, uma concentração de 4 miligramas por metro cúbico foi associada a um aumento de 13% no risco relativo de cardiopatia isquêmica, condição caracterizada pela redução do fluxo sanguíneo para o músculo cardíaco. Os cientistas também estimaram uma carga de 42,08 anos de vida saudável perdidos por 100 mil habitantes ao ano, utilizando o indicador DALY, que considera tanto a mortalidade prematura quanto os anos vividos com incapacidades. A metodologia permite dimensionar os impactos das doenças para além do número de óbitos, incorporando as consequências sobre a qualidade de vida.
A investigação também identificou associações relevantes entre outros poluentes e diferentes condições clínicas. O dióxido de nitrogênio (NO₂) foi relacionado ao aumento de até 17% no risco de asma, com efeitos observados por pelo menos uma semana após a exposição. Já o material particulado fino e inalável, representado pelas categorias PM₂,₅ e PM₁₀, apresentou associações com câncer de pulmão, diabetes, acidente vascular cerebral e doenças vasculares. O dióxido de enxofre (SO₂), por sua vez, foi relacionado ao agravamento da doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e de problemas circulatórios. Os resultados evidenciam que diferentes contaminantes podem estar associados a consequências específicas para a saúde, especialmente quando a exposição ocorre de maneira contínua.
Outro aspecto destacado pelos pesquisadores foi a influência das condições climáticas e dos hábitos domésticos sobre a concentração dos poluentes. Durante o inverno, o uso de sistemas de aquecimento e a permanência de portas e janelas fechadas favoreceram o aumento da poluição nos ambientes internos. A combinação entre fontes de combustão e ventilação insuficiente pode intensificar a exposição dos moradores a substâncias prejudiciais. Embora os resultados tenham sido obtidos em uma cidade chinesa, a investigação contribui para uma discussão de interesse internacional, uma vez que atividades como cozinhar, aquecer ambientes e utilizar equipamentos de combustão também fazem parte da rotina de residências em diferentes países.
As conclusões do estudo reforçam a necessidade de considerar a qualidade do ar interno como parte das estratégias de prevenção de doenças e promoção da saúde pública. Os cinco poluentes avaliados apresentaram correlações positivas estatisticamente significativas com condições específicas de saúde, incluindo efeitos associados à exposição acumulada ao longo dos dias. Entre as medidas preventivas destacadas estão a ventilação adequada dos ambientes, a manutenção dos equipamentos de combustão e a observância de parâmetros técnicos de qualidade do ar, como os estabelecidos pela norma chinesa GB/T 18883-2022, utilizada como referência na investigação. A pesquisa amplia as evidências de que a proteção da saúde começa também nos espaços onde as pessoas vivem e permanecem por longos períodos.
Referência: ZHANG, X. et al. Relative risk and DALYsassessment of indoor air pollutants in residential buildings – taking Dalian asan example. BMC Public Health, v. 26, art. 388, 14 jan. 2026. DOI:10.1186/s12889-025-26133-2.