O ar respirado dentro de casa nem sempre oferece maior proteção contra a poluição do que aquele encontrado nas ruas. Um estudo publicado em 2026 na revista científica Environmental Pollution analisou 85 residências em Zagreb, na Croácia, entre maio de 2023 e dezembro de 2024, e identificou concentrações semelhantes de partículas finas PM1 nos ambientes internos e externos. A mediana registrada foi de 12,55 microgramas por metro cúbico (µg/m³) dentro das residências e 12,26 µg/m³ fora delas. Os resultados demonstram que os espaços domésticos podem apresentar exposição relevante a contaminantes atmosféricos, contrariando a percepção de que permanecer em ambientes fechados significa, necessariamente, respirar um ar mais limpo.
A investigação, conduzida por Jakovljević e colaboradores, examinou a presença de diferentes substâncias químicas associadas ao material particulado PM1, formado por partículas com diâmetro inferior a um micrômetro. Entre os compostos avaliados estavam os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (PAHs), frequentemente relacionados a processos de combustão, e os éteres difenílicos polibromados (PBDEs), utilizados como retardantes de chama em determinados móveis, equipamentos eletrônicos, tecidos e outros materiais. A análise permitiu observar diferenças entre as fontes de contaminação, evidenciando que parte dos poluentes pode chegar às residências pelo ar externo, enquanto outros estão associados a materiais e atividades presentes nos próprios imóveis.
Os resultados mostraram que a concentração mediana de PAHs no ambiente externo foi de 3,400 nanogramas por metro cúbico (ng/m³), quase três vezes superior à registrada nos ambientes internos. Durante o inverno, os níveis aumentaram para 11,293 ng/m³ fora das residências e 6,641 ng/m³ dentro delas. Situações específicas revelaram concentrações internas particularmente elevadas: em uma residência com fogão a lenha, o valor foi 14,7 vezes superior ao externo, enquanto em outra, com presença de fumante ativo, a diferença chegou a 6,3 vezes. Em relação aos PBDEs, o composto BDE-47 foi identificado em 98% das amostras internas, com grande variabilidade entre os imóveis, indicando a influência de fontes particulares de contaminação.
A pesquisa também avaliou potenciais riscos à saúde relacionados à exposição aos contaminantes analisados. Para os compostos associados aos PAHs, as estimativas de risco de câncer ao longo da vida situaram-se entre 10⁻⁵ e 10⁻⁴, faixa considerada relevante para avaliação ambiental segundo os critérios utilizados no estudo. As crianças pequenas merecem atenção especial por apresentarem características fisiológicas e padrões de permanência nos ambientes domésticos que podem aumentar sua exposição relativa. Já os riscos estimados pela via de inalação dos PBDEs permaneceram abaixo dos limites de referência considerados pelos pesquisadores. Esses resultados representam estimativas de risco e não significam que os moradores avaliados tenham desenvolvido doenças em consequência das concentrações medidas.
Os achados reforçam a importância de considerar a qualidade do ar interno nas estratégias de prevenção e saúde ambiental. A ventilação adequada constitui uma medida relevante, mas sua eficácia depende também das condições do ar externo e das fontes de poluição existentes dentro dos imóveis. A redução da exposição à fumaça de tabaco, o controle das emissões provenientes da queima de combustíveis e a atenção aos materiais presentes nas residências integram esse conjunto de cuidados. O estudo contribui para ampliar o conhecimento sobre a poluição doméstica e evidencia a necessidade de avaliações que considerem simultaneamente os contaminantes externos, as fontes internas e as características de ocupação de cada ambiente.
Referência científica: Jakovljević, I. et al. Characterizing PM₁-bound PAHs and PBDEs in urban households: Levels, sources, and health risks. Environmental Pollution, v. 398, art. 128045, 2026. DOI: 10.1016/j.envpol.2026.128045.