A fumaça produzida pela queima de carvão em fogões domésticos pode provocar alterações no funcionamento do material genético, ampliando as preocupações científicas sobre os efeitos da poluição do ar dentro das residências. Um estudo publicado em 2026 na revista científica Environmental Research, conduzido por pesquisadores ligados ao National Cancer Institute, dos Estados Unidos, e à Universidade de Utrecht, investigou a exposição à fumaça de carvão na região de Xuanwei, na China, conhecida pela elevada incidência de câncer de pulmão entre mulheres que nunca fumaram. Os resultados identificaram alterações na metilação do DNA, mecanismo que regula a atividade dos genes sem modificar sua sequência genética.
A investigação analisou amostras de sangue de 106 mulheres não fumantes, examinando mais de 485 mil pontos do genoma. Os pesquisadores consideraram diferentes períodos de exposição, incluindo a infância, a exposição atual e o contato acumulado ao longo da vida. Para reconstruir esse histórico, utilizaram informações sobre os combustíveis empregados nas residências, questionários e medições da qualidade do ar. Os resultados apontaram predominantemente para a redução da metilação em determinadas regiões do DNA, incluindo alterações relacionadas ao gene AHRR, também estudado em pesquisas sobre tabagismo. Entretanto, boa parte das associações identificadas apresentou características distintas daquelas tradicionalmente observadas na exposição à fumaça de cigarros.
Um dos resultados mais relevantes envolveu o gene SLC43A2, associado a processos celulares importantes para o funcionamento do sistema imunológico. Três regiões desse gene apresentaram alterações relacionadas tanto à exposição durante a infância quanto ao contato acumulado com a poluição doméstica. A análise também identificou associações com vias biológicas envolvidas em mecanismos moleculares do câncer e na sinalização do câncer de pulmão de não pequenas células. Entre os compostos investigados, o 5-metilcriseno destacou-se por sua associação com as alterações epigenéticas observadas. Os achados sugerem possíveis mecanismos biológicos pelos quais a exposição prolongada à fumaça de carvão pode contribuir para riscos à saúde, embora não demonstrem, isoladamente, que essas alterações provoquem câncer.
A pesquisa amplia o debate sobre a qualidade do ar interno como questão de saúde pública, especialmente em comunidades que dependem de combustíveis sólidos para cozinhar ou aquecer ambientes. A combustão em equipamentos inadequados, particularmente quando não existe exaustão eficiente, pode favorecer o acúmulo de poluentes no interior das residências. Crianças, idosos e pessoas que permanecem longos períodos nesses espaços merecem atenção especial. Nesse contexto, o estudo também reforça a relevância de iniciativas de educação ambiental, prevenção de doenças respiratórias e promoção de ambientes internos mais saudáveis, temas relacionados às discussões sobre qualidade do ar desenvolvidas pelo Instituto Safeweb.
Embora os pesquisadores reconheçam limitações, especialmente o número reduzido de participantes e a impossibilidade de estabelecer causalidade definitiva, os resultados acrescentam evidências sobre possíveis efeitos moleculares da poluição doméstica. A adoção de tecnologias de cocção mais limpas, sistemas adequados de exaustão e medidas de ventilação integra as estratégias de redução da exposição, sem substituir a necessidade de eliminar ou controlar as fontes poluentes. A principal contribuição da investigação está em demonstrar que os impactos da fumaça doméstica podem ultrapassar os sintomas respiratórios imediatos e estar associados a alterações biológicas detectáveis, reforçando a importância de políticas públicas e práticas preventivas voltadas à qualidade do ar nos ambientes internos.
REFERÊNCIA CIENTÍFICA: RAHMAN, M. L. et al. Epigenome-wide association study of household air pollution exposure in an area with high lung cancer incidence. Environmental Research, v. 292, artigo 123690, 2026. DOI: https://doi.org/10.1016/j.envres.2026.123690