A qualidade do ar dentro de casa exige atenção para além da poluição das ruas. Uma revisão publicada na revista Buildings, que reúne 105 estudos de 15 países, aponta lacunas na pesquisa, na ventilação dos imóveis e na aplicação de regras de proteção. O trabalho destaca que populações urbanas passam entre 80% e 90% do tempo em ambientes fechados, o que torna a exposição nesses espaços relevante para a saúde pública. A estimativa de 6,7 milhões de mortes prematuras anuais citada nesse debate, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), corresponde aos efeitos combinados da poluição externa e doméstica, e não exclusivamente ao ar interno.
Entre as atividades domésticas analisadas, o preparo de alimentos aparece como uma fonte importante de partículas finas. Conforme a síntese apresentada no material de referência, um experimento registrou pico de 92,9 microgramas de PM2,5 por metro cúbico ao fritar na frigideira, ante 0,6 com fritadeira a ar. A diferença se refere às condições daquele ensaio e não representa uma proporção universal entre os equipamentos. Em outro levantamento, realizado em 132 residências canadenses, somente 27% dos eventos de cocção utilizaram ventilação adicional; a cozinha respondeu por cerca de 22% da exposição diária às partículas.
A existência de equipamentos, entretanto, não assegura seu desempenho. A revisão relata uma auditoria em 55 casas novas nos Estados Unidos na qual 35% dos sistemas de ventilação não atendiam aos requisitos mínimos de vazão, 46% apresentavam problemas de rotulagem e 76% dos moradores não sabiam operar os equipamentos. Esses resultados dizem respeito à amostra investigada e evidenciam a necessidade de verificar o funcionamento dos sistemas e orientar os usuários, em vez de considerar a instalação como garantia suficiente de proteção.
Na dimensão regulatória, o material informa a existência de mais de 840 limites de qualidade do ar interior em mais de 40 países, dos quais apenas cerca de um terço teria força legal. A distribuição das pesquisas também revela desigualdades: entre os trabalhos reunidos, a África aparece com um estudo de campo primário e a América Latina, com três. Essa participação reduzida limita a compreensão das condições locais e reforça a importância de produzir evidências que considerem diferentes moradias, práticas domésticas e realidades sociais.
Como encaminhamento, os autores apresentam dois instrumentos conceituais: o MGIF, que organiza lacunas em conhecimento, método, tecnologia, política e equidade, e o UIAQN, que relaciona poluentes, sistemas prediais, exposição pessoal e governança. As propostas ainda não possuem validação externa. A perspectiva apontada pela revisão é aproximar pesquisa, regulamentação e operação dos edifícios, com verificação do desempenho da ventilação e informação aos ocupantes. Para a gestão dos ambientes internos, o desafio envolve garantir que as soluções instaladas funcionem efetivamente no uso cotidiano.
Referência: TAFAZZOLI, M.; HAQ, I.; NAEIJIAN, F.;MOUSAVI, E.; GOODARZI, M. Indoor Air Quality: A Comprehensive Evidence-GapSynthesis, Policy Failures, and a Framework for Future Action. Buildings,v. 16, n. 17, art. 3347, 2026. DOI: https://doi.org/10.3390/buildings16173347