Editorial

Pacto Rio-grandense pela Descarbonização: um chamado à força política

O Rio Grande do Sul diante de uma escolha que define o futuro

Há momentos em que a história de um povo se decide não pelo que se diz, mas pela força com que se age. O Rio Grande do Sul vive agora um desses momentos. Enquanto o mundo avança em direção à descarbonização da economia e da saúde, o nosso Estado ainda convive, em silêncio, com ambientes internos — casas, escolas, hospitais, refeitórios de empresas — onde a concentração de gases e poluentes frequentemente supera a do ar externo. Passamos cerca de 90% do nosso tempo nesses ambientes, e a ciência é categórica ao apontar que os fatores de risco ambientais já contribuem para cerca de 20 milhões de mortes por ano no mundo, com a poluição do ar sozinha responsável por 9 a 12,6 milhões de óbitos anuais (Münzel et al., JACC, 2026). Não se trata, portanto, de uma pauta ambiental entre tantas: trata-se de uma pauta de saúde pública, de dignidade do trabalhador e de soberania do nosso desenvolvimento. É por isso que o Pacto Rio-grandense pela Descarbonização da Saúde não pode ser tratado como mais um documento institucional — ele precisa ser abraçado como causa política de Estado.

O pacto como instrumento de transformação concreta

O Pacto Rio-grandense não é uma carta de intenções. É um programa de ação. Ele propõe a medição, o monitoramento e o inventário dos gases e poluentes atmosféricos internos — CO₂, CO, NO₂, SO₂, formaldeído, benzeno, compostos orgânicos voláteis e material particulado (PM₁, PM₂,₅, PM₁₀) — emitidos por fogões, fornos, aquecedores, chuveiros e caldeiras que queimam GLP, metano e outros combustíveis fósseis. A partir desse diagnóstico, estrutura-se uma estratégia progressiva de troca, substituição e modernização tecnológica, priorizando soluções mais limpas, eletrificação eficiente e energias renováveis. Esse é o caminho que o próprio artigo do JACC defende ao integrar a saúde ambiental e planetária ao cuidado cardiovascular: prevenir antes de tratar, agir na raiz das exposições. Mas nenhum diagnóstico e nenhuma estratégia se convertem em realidade sem vontade política — sem que governos, parlamentos, prefeituras e empresas assumam o pacto como prioridade, com recursos, metas e cobrança pública de resultados.

A força política que transforma custo em investimento

Há quem tema que toda nova exigência ambiental se traduza em mais um imposto, mais um encargo sobre as empresas. Este movimento é o oposto disso — e é preciso que os líderes políticos tenham coragem de dizê-lo. A transição energética aqui proposta reduz custos e gera retorno: trocar um fogão a gás por indução, modernizar uma caldeira, eletrificar o aquecimento e melhorar a ventilação são mudanças rápidas e, muitas vezes, baratas, que cortam despesas recorrentes com combustível e energia. O JACC documenta que iniciativas de sustentabilidade reduzem os custos operacionais enquanto melhoram a saúde ambiental. E há um ganho que o balanço contábil não captura: a redução da insalubridade e da nocividade ocupacional significa menos afastamentos, menos doenças cardiovasculares e respiratórias entre os trabalhadores, menos absenteísmo e mais produtividade. A força política que este pacto exige não é a força de quem impõe encargos — é a força de quem investe no que é mais barato e mais justo: ar limpo, saúde e futuro.

Um chamado aos líderes: que a luta de força seja pela vida

Chegou a hora de transformar apoio em compromisso e compromisso em lei, em orçamento e em ação. Convocamos os prefeitos, os deputados, os senadores, os governadores e os gestores públicos e privados do Rio Grande do Sul a abraçarem o Pacto Rio-grandense pela Descarbonização da Saúde como bandeira política. Que cada mandato, cada secretaria e cada empresa assuma a meta de medir, monitorar e mitigar as emissões dos ambientes internos; que se publique anualmente o relatório de sustentabilidade com os avanços e as metas pactuadas; que se comece, já, pela troca do fogão e pela saída da insalubridade. Este é um momento de luta de força — mas a força que pedimos não é a da imposição, e sim a da convicção de que cuidar do ar que respiramos é o ato político mais poderoso que podemos oferecer à nossa gente. Que o Rio Grande lidere o Brasil nessa causa. A história nos observa, e ela escolhe o lado daqueles que agem.

Alexandre S. Tavares, PhD

Diretor de PD&I Instituto Safeweb | Membro do BioHub Tecnopuc

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Instituto Safeweb News 16

21/8/26 17:38

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