Editorial

O ar que ninguém audita, o risco que ninguém reporta

Quando se fala em sustentabilidade corporativa no Brasil, os relatórios ESG ainda tratam o ambiente interno como um ponto cego. As práticas de consultoria concentram-se em inventários de emissões de gases de efeito estufa pelo GHG Protocol e em metas de descarbonização, mas raramente incluem um inventário de gases e poluentes atmosféricos presentes em ambientes fechados. Esse tipo de análise deveria constar, de forma sistemática, nos relatórios de sustentabilidade. Afinal, passamos cerca de 90% do nosso tempo em ambientes internos, casas, escritórios, hospitais, escolas, academias, prefeituras, indústrias, entre outros vários e esses ambientes não são auditados nem reportados como um fator de risco material, ainda que impactem diretamente a saúde, a produtividade e a reputação das empresas. No Brasil, isso ainda não é prática consolidada das consultorias; seria uma evolução natural do setor.

Há, porém, uma lógica de mercado e de proteção ao investidor que justifica essa mudança. O padrão IFRS S1, emitido pelo International Sustainability Standards Board (ISSB), exige que as empresas divulguem riscos e oportunidades de sustentabilidade que sejam materialmente relevantes para o valor da empresa no curto, médio e longo prazo (recomendações herdadas do framework TCFD). Um ambiente interno insalubre é, inequivocamente, um risco material: impacta o absenteísmo, a perda de produtividade, a saúde das pessoas e a percepção de qualidade das partes interessadas. Empresas que monitoram a qualidade do ar em seus espaços demonstram, com dados, cuidado com as pessoas que circulam em seus ambientes, exatamente o tipo de indicador que o padrão valoriza na prestação de contas ao investidor.

A boa notícia é que o caminho mais seguro também é o mais simples de percorrer. Medir a qualidade do ar interno é uma decisão que agrega valor muito antes de qualquer tema se tornar problema. Empresas, escolas e academias que monitoram os ambientes em que circulam pessoas colhem retornos imediatos: menos absenteísmo, mais foco e desempenho, ambientes que transmitem cuidado e que podem dizer isso publicamente, com dados, nos próprios relatórios de sustentabilidade e nos canais de comunicação com clientes e colaboradores.

É um diferencial que se conta em uma frase: "aqui, você respira ar saudável." Quem mede, pode melhorar; quem melhora, pode comunicar; quem comunica com transparência, constrói confiança com o consumidor, com o trabalhador e com o investidor. A pergunta que se coloca às lideranças não é sobre o que pode dar errado amanhã, mas sobre o quanto de valor ainda está por ser criado dentro dos próprios espaços. Transformar o ar interno em indicador gerenciado é transformar um tema técnico em um ativo: de saúde, de produtividade e de reputação.

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Alexandre de Souza Tavares - PhD em Transição Energética e Gestão da Informação / Diretor de PD&I do Instituto Safeweb membro do BioHub Tecnopuc

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Instituto Safeweb News 21

16/10/26 11:15

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