Pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto identificou correlações entre internações hospitalares e níveis de dióxido de nitrogênio e partículas inaláveis em diferentes regiões de Portugal

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A exposição prolongada à poluição atmosférica pode estar relacionada ao desenvolvimento e ao agravamento de doenças neurodegenerativas. Um trabalho realizado na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, em Portugal, identificou correlações significativas entre indicadores ambientais e hospitalizações de pacientes com demência, incluindo a doença de Alzheimer, doença de Parkinson e esclerose múltipla. da pelo professor Hernâni Gonçalves, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto — FMUP, a investigação analisou a distribuição geográfica das doenças neurodegenerativas e cruzou os dados de internações em hospitais públicos portugueses com informações sobre a concentração de poluentes atmosféricos em diferentes regiões do país. ho integrou a tese de doutorado de Mariana Ramos Oliveira em Ciência de Dados de Saúde na FMUP e recebeu financiamento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia de Portugal. Também participaram da investigação Alberto Freitas e Ana Cláudia Teodoro, pesquisadora da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. tados apontaram correlações entre as hospitalizações por doenças neurodegenerativas e praticamente todas as variáveis ambientais analisadas. As associações mais relevantes apareceram em relação ao dióxido de nitrogênio — chamado de dióxido de azoto em Portugal — e às partículas com diâmetro igual ou inferior a 10 micrômetros, classificadas como PM10. culas PM10 são consideradas partículas inaláveis. Já a expressão “partículas finas” é tecnicamente mais adequada ao PM2,5, cujo diâmetro é igual ou inferior a 2,5 micrômetros. A distinção é importante porque o tamanho das partículas interfere na profundidade com que elas conseguem penetrar no sistema respiratório e nos possíveis efeitos sobre o organismo. A Organização Mundial da Saúde reconhece tanto o PM10 quanto o PM2,5 entre os principais poluentes relacionados a danos à saúde. de satélite e internações hospitalares.
Para construir o mapa ambiental, os pesquisadores utilizaram imagens de satélite processadas por meio da plataforma Google Earth Engine e informações obtidas em estações meteorológicas e sistemas de monitoramento, como QualAr, Instituto Português do Mar e da Atmosfera — IPMA — e Ministério para a Transição Ecológica e o Desafio Demográfico da Espanha — MITECO. formações foram cruzadas com registros de internações de pacientes com doenças neurodegenerativas atendidos em hospitais públicos de Portugal. O método permitiu observar se regiões com determinadas condições ambientais também apresentavam padrões específicos de hospitalização. ação de ferramentas geoespaciais possibilita identificar concentrações territoriais de doenças e comparar esses dados com fontes de exposição ambiental. Essa abordagem pode revelar desigualdades entre regiões, aproximar a pesquisa científica do planejamento urbano e auxiliar na definição de áreas prioritárias para ações preventivas.
Os resultados, no entanto, precisam ser interpretados com cautela. Uma correlação geográfica não comprova, por si só, que determinado poluente tenha provocado diretamente uma doença ou uma internação. Idade, predisposição genética, hipertensão, diabetes, tabagismo, consumo de álcool, histórico de lesões e condições socioeconômicas também podem interferir no risco individual. A própria pesquisadora Mariana Ramos Oliveira destaca que esses fatores são amplamente conhecidos, enquanto a influência ambiental ainda permanece menos compreendida. ção produz inflamação e estresse oxidativo.
A relação entre poluição e doenças neurodegenerativas pode ser explicada por diferentes mecanismos biológicos. Segundo a divulgação oficial da Universidade do Porto, os poluentes podem afetar o sistema nervoso central e contribuir para processos de inflamação, toxicidade, estresse oxidativo e lesões progressivas. se oxidativo ocorre quando há um desequilíbrio entre a produção de moléculas reativas e a capacidade do organismo de neutralizá-las. Em níveis elevados e persistentes, esse processo pode danificar células, proteínas, estruturas vasculares e tecidos.
A Organização Mundial da Saúde informa que a inalação de poluentes pode desencadear inflamação, estresse oxidativo, alterações imunológicas e danos celulares em diferentes partes do organismo, atingindo não apenas os pulmões e o coração, mas também o cérebro. A entidade considera que já existem evidências sugestivas ligando a poluição à redução da capacidade cognitiva e a doenças neurológicas. culas menores representam uma preocupação adicional porque conseguem alcançar regiões mais profundas do sistema respiratório. Alguns componentes transportados por essas partículas também podem contribuir para respostas inflamatórias sistêmicas e alterações nos vasos sanguíneos.
No caso do dióxido de nitrogênio, a exposição está fortemente associada ao tráfego rodoviário e à queima de combustíveis. O poluente também participa da formação de outros contaminantes atmosféricos e é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde por seus efeitos adversos, especialmente sobre o sistema respiratório. ito e combustíveis fósseis.
A queima de gasolina e diesel em automóveis, caminhões e outros veículos está entre as fontes relevantes de dióxido de nitrogênio e material particulado em áreas urbanas. Atividades industriais, aquecimento, geração de energia, obras, poeira ressuspensa e outras fontes também podem contribuir para a concentração desses poluentes. sa portuguesa reforça, portanto, a conexão entre saúde, mobilidade, planejamento urbano e transição energética. A substituição progressiva de fontes poluentes, a ampliação do transporte coletivo de baixa emissão, a eletrificação da mobilidade, o incentivo aos deslocamentos a pé ou de bicicleta e o monitoramento permanente da qualidade do ar podem gerar benefícios que ultrapassam a proteção respiratória.
Reduzir a dependência dos combustíveis fósseis também pode diminuir a exposição a contaminantes associados a doenças cardiovasculares, pulmonares, metabólicas e neurológicas. A Organização Mundial da Saúde recomenda políticas integradas nas áreas de energia, transporte, habitação e desenvolvimento urbano para enfrentar os efeitos da poluição sobre a saúde. ões científicas reforçam associação.
Os resultados observados em Portugal estão alinhados a duas revisões sistemáticas realizadas pela mesma equipe, reunindo pesquisas internacionais publicadas entre 2000 e 2023. Esses trabalhos identificaram associações entre doenças neurodegenerativas e a exposição ao dióxido de nitrogênio, aos óxidos de nitrogênio e ao material particulado, incluindo o PM2,5. ra revisão sistemática, publicada em 2020, analisou estudos que utilizaram ferramentas geográficas para investigar fatores atmosféricos relacionados a doenças neurodegenerativas. Entre os 34 artigos incluídos, aproximadamente 60% abordavam a esclerose múltipla, demonstrando que a distribuição das pesquisas ainda era desigual entre as diferentes patologias. zação publicada em outubro de 2024 ampliou a análise da literatura científica disponível e reforçou a necessidade de estudos geoespaciais mais consistentes sobre a influência do ambiente na saúde neurológica. O artigo foi assinado por Mariana Oliveira, André Padrão, Ana Cláudia Teodoro, Alberto Freitas e Hernâni Gonçalves. visões não indicam que todas as pessoas expostas desenvolverão uma doença neurodegenerativa. Elas mostram que determinados poluentes podem integrar um conjunto de fatores associados ao risco e que a exposição ambiental precisa ser mais bem considerada nas estratégias de pesquisa, prevenção e vigilância.
As doenças analisadas apresentam características, mecanismos e fatores de risco distintos.
A doença de Alzheimer é a causa mais frequente de demência e está associada à perda progressiva de memória, capacidade de raciocínio e autonomia. A Organização Mundial da Saúde já inclui a poluição atmosférica entre os fatores ambientais relacionados ao risco de declínio cognitivo e demência. de Parkinson compromete principalmente os movimentos, mas também pode provocar alterações cognitivas, emocionais, sensoriais e comportamentais. Pesquisas internacionais investigam a possível contribuição da exposição prolongada a partículas, óxidos de nitrogênio, ozônio e outros contaminantes para o desenvolvimento ou agravamento da doença.
A esclerose múltipla é uma condição inflamatória e imunomediada que afeta o sistema nervoso central. Embora não tenha uma causa única conhecida, fatores genéticos, imunológicos, infecciosos, comportamentais e ambientais são investigados.
Por apresentarem mecanismos distintos, essas doenças não devem ser agrupadas como se respondessem da mesma maneira à poluição. O estudo da FMUP identificou padrões e correlações territoriais, mas novos trabalhos são necessários para esclarecer como cada contaminante pode atuar em diferentes doenças e grupos populacionais.
A divulgação da Universidade do Porto informa que níveis excessivos de poluição afetam mais de 90% da população mundial. Esse percentual correspondia a estimativas amplamente utilizadas em anos anteriores. Os dados atualmente divulgados pela Organização Mundial da Saúde apontam que 99% da população mundial vive em locais onde a qualidade do ar não atende aos limites recomendados pela entidade. significa que todas as pessoas estejam submetidas às mesmas concentrações ou enfrentem riscos idênticos. Países de baixa e média renda, moradores de áreas próximas a vias de tráfego intenso, comunidades vizinhas a zonas industriais, trabalhadores expostos e populações com menor acesso à saúde podem sofrer impactos desproporcionais. tima que a poluição atmosférica externa esteja associada a aproximadamente 4,2 milhões de mortes por ano. As evidências mais consolidadas envolvem doenças cardíacas, acidentes vasculares cerebrais, câncer de pulmão, doença pulmonar obstrutiva crônica e infecções respiratórias. Ao mesmo tempo, cresce a investigação sobre possíveis efeitos metabólicos, cognitivos, psiquiátricos e neurológicos. menta para políticas públicas
Uma das principais contribuições do trabalho português está na possibilidade de utilizar informações ambientais e de saúde para orientar decisões públicas.
O cruzamento entre a localização das hospitalizações e os níveis de poluentes pode ajudar gestores e profissionais de saúde a reconhecer regiões que exigem maior atenção, aprimorar sistemas de vigilância e planejar intervenções de prevenção. Essa é uma possibilidade apontada pelos próprios pesquisadores, e não um método já validado para prever individualmente quem desenvolverá uma doença. bientais podem contribuir para decisões sobre monitoramento da qualidade do ar, organização do trânsito, localização de equipamentos públicos, expansão de áreas verdes, restrição de emissões, proteção de comunidades vulneráveis e preparação dos serviços de saúde.
Os resultados também mostram a importância da integração entre diferentes bases de dados. Informações de satélite, estações de monitoramento, registros hospitalares, indicadores sociais e características urbanas podem oferecer uma visão mais ampla dos riscos existentes em cada território.
Para que essas ferramentas sejam utilizadas com segurança, é necessário garantir qualidade dos dados, proteção das informações pessoais, transparência metodológica e avaliação contínua dos possíveis fatores de confusão.
O trabalho da Universidade do Porto amplia a discussão sobre as doenças neurodegenerativas ao demonstrar que a prevenção não depende somente de escolhas individuais ou acompanhamento médico.
Controlar a hipertensão e o diabetes, evitar o tabagismo, manter atividade física e buscar atendimento adequado continuam sendo medidas fundamentais. No entanto, a população também depende de políticas capazes de garantir ar mais limpo, transporte menos poluente, cidades mais verdes e ambientes saudáveis.
A pesquisa aproxima a neurologia das agendas de sustentabilidade, saúde ambiental, planejamento urbano e transição energética. Essa integração é especialmente importante porque as doenças neurodegenerativas podem gerar perda progressiva de autonomia, necessidade de cuidados prolongados e impactos humanos, sociais e econômicos para pacientes, famílias e sistemas de saúde.
Reduzir a poluição não constitui uma garantia absoluta de prevenção de Alzheimer, Parkinson ou esclerose múltipla. Representa, porém, uma medida coletiva capaz de diminuir exposições nocivas e contribuir para a proteção de diferentes sistemas do organismo, incluindo o cérebro.
Ao mapear as relações entre território, qualidade do ar e hospitalizações, a investigação portuguesa reforça uma mensagem essencial: o ambiente em que as pessoas vivem também precisa integrar as estratégias de promoção da saúde cerebral.
Fonte: Azevedo, C.; Magalhães, O. Estudo da FMUP associa poluentes atmosféricos a doenças neurodegenerativas. Notícias U.Porto, 30 out. 2024. Disponível em: https://noticias.up.pt/2024/10/30/estudo-da-fmup-associa-poluentes-atmosfericos-as-doencas-neurodegenerativas/. Acesso em: 17 jul. 2026.
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