A fumaça produzida pela queima de lenha merece atenção quando o assunto é saúde infantil. Uma revisão narrativa publicada em 2017, baseada em artigos localizados no PubMed e Web of Science, identificou 36 estudos realizados em países desenvolvidos que avaliaram o uso de fogões a lenha em residências e/ou a exposição comunitária à fumaça da queima de lenha em relação a desfechos de saúde pediátrica. O conjunto analisado concentrou-se principalmente em efeitos respiratórios e encontrou associação consistente entre a exposição à fumaça na comunidade e problemas de saúde respiratória em crianças.
O tema ganha relevância também pela presença desse tipo de aquecimento em países desenvolvidos. Segundo o estudo, mais de 11 milhões de lares nos Estados Unidos eram aquecidos com fogões a lenha. Embora a lenha possa reduzir custos de aquecimento, sua combustão libera poluentes atmosféricos gasosos e particulados, e os autores chamam a atenção para a possibilidade de efeitos negativos sobre a saúde infantil. A revisão teve como objetivo ampliar a conscientização de pediatras sobre essa questão de saúde ambiental.
Os resultados, porém, exigem leitura cuidadosa. Enquanto a exposição comunitária à fumaça da queima de lenha apareceu de forma consistente associada a problemas respiratórios pediátricos, a relação entre o uso de fogões a lenha dentro das residências e esses desfechos foi menos consistente. Os autores observam que os estudos residenciais se basearam no autorrelato do uso do fogão, enquanto as pesquisas sobre exposição comunitária geralmente mediram a poluição do ar de maneira direta e mais precisa, em populações maiores.
A própria revisão destaca limitações importantes na base científica disponível. Na maioria dos estudos, potenciais fatores de confusão, como marcadores de nível socioeconômico, não foram considerados e podem ter influenciado os resultados. Também não houve avaliação de desfechos cardiometabólicos ou neurocognitivos. Por isso, os autores defendem novos estudos com melhor avaliação da exposição, controle de fatores de confusão e investigação de efeitos além do sistema respiratório.
Enquanto novas evidências são produzidas, a revisão registra medidas de precaução recomendadas pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) para reduzir a exposição: substituir equipamentos antigos por fogões certificados pela agência, realizar manutenção adequada e utilizar exclusivamente lenha seca e bem curada. O trabalho também informa que diversos estudos demonstraram redução da exposição à poluição com o uso de filtros de ar mecânicos em residências e comunidades afetadas, reforçando a prevenção como parte da discussão sobre qualidade do ar e proteção da infância.
Referência:
ROKOFF, L. B. et al. Poluição por fogões a lenha no mundo desenvolvido: um caso para conscientizar pediatras. Current Problems in Pediatric and Adolescent Health Care, 2017. DOI: 10.1016/j.cppeds.2017.04.001. PMID: 28583817.