Uma revisão científica sobre os impactos da poluição do ar na saúde cardiovascular de populações africanas aponta uma associação consistente entre a exposição a poluentes e o aumento de derrames, internações e mortes por doenças do coração e dos vasos sanguíneos. O levantamento identificou apenas seis estudos publicados sobre o tema no continente, cinco deles realizados na África do Sul, evidenciando ao mesmo tempo a gravidade dos resultados disponíveis e a escassez de dados locais. Estimativas da Organização Mundial da Saúde citadas no artigo indicam que a poluição causou cerca de 780 mil mortes na África em 2019, das quais 334 mil foram atribuídas a doenças cardiovasculares.
As fontes de exposição estão presentes tanto dentro das residências quanto nos centros urbanos. Milhões de famílias ainda utilizam lenha e carvão para cozinhar e aquecer suas casas, liberando fumaça no ambiente interno. Nas cidades, a queima de resíduos agrícolas a céu aberto e o trânsito também contribuem para o problema, sendo o transporte responsável por cerca de 40% da poluição urbana, segundo o material analisado. O monitoramento permanece limitado: dos 54 países africanos, apenas 24 dispõem de alguma capacidade de medir a qualidade do ar, e somente duas cidades da África do Sul atingiram os padrões recomendados pela OMS.
O estudo chama atenção ainda para a tendência de crescimento das doenças cardiovasculares no continente. As projeções reunidas no levantamento indicam que, até 2030, essas enfermidades poderão superar as doenças infecciosas como principal causa de morte na África. As populações mais pobres aparecem entre as mais vulneráveis, por conviverem com maior exposição à fumaça em casa e nas ruas e terem menos recursos para proteção. A falta de informações locais confiáveis também dificulta a formulação de políticas públicas ajustadas à realidade de diferentes países e regiões.
Diante desse cenário, a qualidade do ar deixa de ser apenas uma questão ambiental e passa a ocupar espaço direto na agenda de saúde pública. A combinação entre exposição cotidiana, doenças cardiovasculares e baixa capacidade de monitoramento cria um desafio que envolve prevenção, infraestrutura, pesquisa e gestão pública. O próprio levantamento destaca que ampliar o conhecimento sobre as fontes de poluição e seus efeitos é essencial para dimensionar com maior precisão os riscos enfrentados pelas populações africanas.
Entre as medidas apontadas pelos autores estão a expansão das redes de medição da poluição, a identificação das principais fontes de fumaça, a adoção de padrões de qualidade do ar e o investimento em pesquisas de longo prazo com métodos padronizados em diferentes países. O uso de dados de satélite também é citado como alternativa para acompanhar áreas remotas e com pouca infraestrutura. O avanço dessas estratégias é apresentado como condição importante para produzir evidências mais robustas e apoiar políticas capazes de reduzir os impactos da poluição sobre a saúde cardiovascular no continente.