Mais de 18% das mortes provocadas por doenças cardiovasculares na Europa são estimadas como atribuíveis a riscos ambientais selecionados. A conclusão integra um relatório da Agência Europeia do Ambiente que reúne evidências sobre os efeitos da poluição do ar, das temperaturas extremas, do ruído, da fumaça passiva e de substâncias químicas sobre o coração e os vasos sanguíneos.
O percentual pode ser ainda maior. A própria agência ressalta que a estimativa considera apenas parte das exposições para as quais existem dados comparáveis entre os países e não incorpora integralmente fatores como ruído ambiental, riscos ocupacionais e compostos tóxicos diferentes do chumbo.
As doenças cardiovasculares formam um amplo grupo de enfermidades que inclui a doença isquêmica do coração, responsável por muitos casos de infarto, e as doenças cerebrovasculares, como o acidente vascular cerebral. Na União Europeia, mais de 6 milhões de novos casos são diagnosticados por ano e mais de 1,7 milhão de pessoas morrem em decorrência de doenças do sistema circulatório, o equivalente a cerca de 37% de todos os óbitos.
Ambiente precisa entrar na prevenção
A prevenção cardiovascular costuma priorizar fatores clínicos e comportamentais, entre eles hipertensão, colesterol elevado, diabetes, excesso de peso, alimentação inadequada, sedentarismo, tabagismo e consumo de álcool. O relatório defende que as políticas de saúde também enfrentem os riscos ambientais e seus determinantes sociais e econômicos.
Ao contrário de escolhas individuais, exposições como poluição urbana, ruído do transporte, calor extremo, frio intenso ou contaminantes presentes no ambiente de trabalho não podem ser evitadas facilmente pela população. A redução desses riscos depende principalmente de legislação, fiscalização, planejamento urbano, proteção trabalhista e investimentos públicos.
Poluição do ar afeta coração e circulação
A poluição atmosférica, tanto externa quanto interna, é apontada como um dos principais riscos ambientais para o sistema cardiovascular. Partículas finas, óxidos de nitrogênio, carbono negro e monóxido de carbono podem desencadear estresse oxidativo e inflamação, aumentando a pressão sobre o coração e os vasos sanguíneos.
Segundo a avaliação, mais de 7% das mortes cardiovasculares nos países abrangidos pela Agência Europeia do Ambiente estão relacionadas à poluição do ar. Para desfechos específicos, a participação estimada é maior: aproximadamente 8,8% das mortes por doença isquêmica do coração e 9,3% das mortes por acidente vascular cerebral são atribuídas à poluição atmosférica.
O relatório menciona estudos nos quais o aumento de 10 microgramas por metro cúbico na exposição prolongada ao material particulado fino PM2,5 está associado a uma elevação de 11% na mortalidade cardiovascular. Também foram observadas associações com AVC e doença coronariana mesmo em concentrações inferiores aos limites vigentes na União Europeia no período analisado.
Ruído, calor e frio também pressionam o organismo
O ruído ambiental pode afetar a saúde por meio do estresse, da perturbação do sono, da elevação da pressão arterial e do aumento dos hormônios relacionados à resposta de alerta. A exposição prolongada é estimada como responsável por 12 mil mortes evitáveis e por 48 mil novos casos anuais de doença isquêmica do coração na União Europeia.
As principais fontes de ruído são o trânsito rodoviário, as ferrovias, as aeronaves e as atividades industriais. Em áreas urbanas, ruído, poluição atmosférica e calor frequentemente se concentram nos mesmos territórios, formando zonas de risco ambiental combinado.
Temperaturas muito altas ou muito baixas também ampliam a sobrecarga cardiovascular. Mais de 7,6% das mortes por doenças cardiovasculares nos países analisados são associadas a temperaturas fora da faixa considerada ideal. O calor eleva a frequência cardíaca, altera a circulação e pode agravar enfermidades existentes. O frio provoca constrição dos vasos, eleva a pressão e pode favorecer a formação de coágulos, infartos e acidentes vasculares cerebrais.
Com o avanço das mudanças climáticas, ondas de calor tendem a se tornar mais frequentes e intensas. A agência alerta que uma eventual redução das mortes relacionadas ao frio não deverá compensar o crescimento esperado da mortalidade provocada pelo calor. A qualidade das moradias, a eficiência energética dos edifícios e a pobreza energética interferem diretamente na capacidade de proteção das famílias.
Fumaça passiva e substâncias químicas
A fumaça passiva contém muitas das substâncias tóxicas inaladas por fumantes e pode causar ou contribuir para doenças cardiovasculares em pessoas que nunca fumaram. A exposição em casa ou no trabalho pode elevar entre 25% e 30% o risco de doença cardíaca entre não fumantes.
O relatório também reúne evidências sobre metais pesados, solventes orgânicos, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, benzeno, substâncias perfluoroalquiladas e polifluoroalquiladas, conhecidas como PFAS, pesticidas, amianto e sílica cristalina. O chumbo apresenta uma das relações mais bem documentadas com doença isquêmica do coração, AVC e fibrilação atrial.
Apesar das evidências disponíveis, milhares de substâncias presentes no mercado e no ambiente ainda não foram examinadas de maneira suficiente quanto aos possíveis efeitos cardiovasculares. Também permanecem lacunas sobre a exposição simultânea a diferentes agentes químicos ao longo da vida.
Desigualdade ambiental também adoece
A carga ambiental das doenças cardiovasculares não se distribui de maneira uniforme. O documento registra percentuais mais elevados em países do leste e do sudeste europeu e destaca a influência de fatores como renda, educação, emprego, condições habitacionais e pobreza energética.
Moradias pouco eficientes e famílias sem recursos para aquecimento ou resfriamento adequado ficam mais expostas ao frio, ao calor e, em determinadas situações, à poluição interna produzida pela queima de combustíveis sólidos. O risco ambiental, portanto, também expressa desigualdades sociais e territoriais em saúde.
Política ambiental também é política de saúde
A Agência Europeia do Ambiente considera que reduzir exposições ambientais é uma estratégia efetiva e economicamente vantajosa para diminuir infartos, AVCs e outras doenças cardiovasculares. Entre as medidas apontadas estão o controle de emissões, a melhoria da qualidade do ar, a redução do ruído, a adaptação às temperaturas extremas, a transição energética, a proteção dos trabalhadores e o enfrentamento da pobreza energética.
O relatório conclui que não é necessário conhecer completamente todas as etapas biológicas entre uma exposição e o desenvolvimento da doença para adotar medidas preventivas. Embora existam incertezas, o conjunto das evidências sustenta ações mais firmes para reduzir a poluição e proteger a saúde coletiva.
O tema dialoga diretamente com as agendas de sustentabilidade, educação ambiental, eficiência energética e descarbonização defendidas pelo Instituto Safeweb. Ao aproximar saúde pública e meio ambiente, o debate evidencia que decisões sobre energia, mobilidade, planejamento urbano, edificações e produção industrial também influenciam a prevenção de doenças.
Os indicadores apresentados se referem ao contexto europeu e não devem ser transferidos automaticamente para o Brasil. Uma contextualização nacional exige dados epidemiológicos brasileiros, fontes oficiais e a participação de especialistas em cardiologia, saúde ambiental, epidemiologia e medicina do trabalho.
Fonte principal: European Environment Agency, “Beating cardiovascular disease — the role of Europe’s environment”, publicada em 22 de junho de 2023 e consultada em 23 de julho de 2026.