A poluição do ar, o excesso de ruído, a exposição à luz artificial, a contaminação por substâncias químicas e plásticos e os efeitos das mudanças climáticas devem passar a ocupar uma posição central nas estratégias de prevenção das doenças cardiovasculares.
O alerta integra a primeira declaração conjunta dedicada ao tema elaborada pela Sociedade Europeia de Cardiologia — European Society of Cardiology (ESC), pelo American College of Cardiology (ACC), pela American Heart Association (AHA) e pela Federação Mundial do Coração — World Heart Federation (WHF). As entidades defendem ações políticas e sanitárias urgentes para reduzir a exposição da população aos chamados estressores ambientais.
A manifestação conjunta representa uma ampliação importante da medicina preventiva. Além dos fatores tradicionalmente relacionados às doenças do coração, como hipertensão, tabagismo e diabetes, as organizações sustentam que as condições ambientais precisam ser incorporadas às avaliações de risco, aos programas de prevenção e às políticas públicas de saúde.
Segundo o documento, os estressores ambientais estariam relacionados a uma estimativa de 4 milhões a 6 milhões de mortes por doenças cardiovasculares por ano, dentro de um total global aproximado de 20 milhões. Isso representa cerca de uma em cada cinco mortes cardiovasculares no mundo e supera o impacto atribuído a diversos fatores de risco tradicionais.
Ameaças que não podem mais ser ignoradas
A declaração reúne diferentes exposições ambientais capazes de afetar o funcionamento do sistema cardiovascular. Entre elas estão a poluição atmosférica, o ruído produzido pelo trânsito, por aviões e por atividades industriais, a iluminação artificial durante a noite, a poluição química, os resíduos plásticos e os eventos associados às mudanças climáticas.
Ondas de calor, incêndios florestais, inundações, tempestades de areia e outras ocorrências climáticas extremas também aparecem entre os fatores que podem aumentar o risco cardiovascular ou agravar doenças preexistentes.
Essas exposições não atuam de maneira isolada. Em regiões urbanas densas, por exemplo, uma mesma pessoa pode conviver simultaneamente com material particulado no ar, ruído contínuo, temperaturas elevadas, baixa presença de áreas verdes e contato frequente com diferentes contaminantes.
O presidente da Sociedade Europeia de Cardiologia e um dos autores do documento, professor Thomas F. Lüscher, resumiu a mudança de perspectiva defendida pelas entidades:
“O coração não existe isoladamente — ele bate dentro de um ecossistema.”
Para Lüscher, os perigos ambientais devem ser considerados ao lado do tabagismo, da hipertensão e do diabetes nas avaliações de risco e nas estratégias preventivas.
O principal autor da declaração, professor Thomas Münzel, do Centro Médico Universitário de Mainz, na Alemanha, classificou os estressores ambientais como aceleradores silenciosos das doenças cardiovasculares. Segundo ele, ar mais limpo, cidades menos ruidosas e estabilidade climática não são apenas objetivos ambientais, mas condições fundamentais para proteger a saúde do coração.
Impacto maior sobre populações vulneráveis
As entidades também chamam a atenção para as desigualdades relacionadas à exposição ambiental. Populações de baixa renda, moradores de áreas com infraestrutura urbana precária, idosos, crianças, trabalhadores expostos ao calor e pessoas que já convivem com doenças cardiovasculares tendem a enfrentar riscos maiores.
Países de baixa e média renda suportam parcela desproporcional dos efeitos da degradação ambiental, embora frequentemente disponham de menos recursos técnicos, financeiros e estruturais para prevenir doenças e responder a emergências climáticas.
A declaração sustenta que a resposta não pode ficar limitada às escolhas individuais. A prevenção cardiovascular precisa envolver regulamentação ambiental, planejamento urbano, pesquisa científica, educação, transformação dos sistemas de saúde e cooperação internacional.
Seis prioridades para proteger a saúde cardiovascular
O posicionamento conjunto apresenta seis áreas consideradas prioritárias:
1. Políticas públicas e articulação internacional
As entidades defendem a harmonização de políticas ambientais e sanitárias, com padrões mais rigorosos para a qualidade do ar, o controle de ruídos e a exposição a substâncias tóxicas.
2. Investimento em pesquisa
O documento recomenda ampliar os estudos sobre os efeitos dos fatores ambientais na saúde cardiovascular, permitindo a criação de medidas preventivas mais precisas e adequadas às diferentes populações.
3. Educação e conscientização
Profissionais da saúde e a sociedade precisam compreender melhor a relação entre ambiente e coração. A formação deve incluir informações sobre poluição, alterações climáticas, exposição química, ruído e prevenção.
4. Planejamento urbano saudável
As cidades devem estimular o transporte limpo, a mobilidade ativa, a ampliação de áreas verdes e a redução da poluição sonora. A organização dos espaços urbanos passa a ser entendida também como uma política de saúde cardiovascular.
5. Sistemas de saúde sustentáveis
Hospitais, clínicas e demais estruturas de atendimento devem reduzir emissões, desperdícios e fontes de poluição associadas à própria prestação dos serviços de saúde.
6. Infraestruturas resilientes ao clima
Os sistemas de saúde precisam estar preparados para proteger as populações mais vulneráveis durante ondas de calor, enchentes, incêndios, interrupções de energia e outros eventos climáticos extremos.
Além dessas prioridades, a declaração recomenda padrões mais rígidos de qualidade do ar e controle de ruído, redução progressiva da dependência de combustíveis fósseis e regulamentação de substâncias químicas tóxicas. As organizações afirmam que vontade política e cooperação internacional serão indispensáveis para transformar as recomendações em medidas concretas.
Saúde ambiental também é prevenção
O documento reforça uma visão integrada da saúde. Tratar doenças cardiovasculares continua sendo indispensável, mas reduzir sua incidência exige enfrentar as condições ambientais que ajudam a produzi-las ou agravá-las.
A prevenção deixa, portanto, de depender apenas da mudança de hábitos individuais e passa a envolver decisões relacionadas à energia, mobilidade urbana, ocupação das cidades, desenvolvimento industrial, redução de emissões e proteção climática.
Essa abordagem também aproxima saúde pública, transição energética, sustentabilidade e planejamento urbano. Cidades com transporte menos poluente, maior presença de áreas verdes, controle de ruído e infraestrutura preparada para eventos extremos podem contribuir para reduzir doenças e melhorar a qualidade de vida.
A declaração conclui que enfrentar as causas dos estressores ambientais pode reduzir a ocorrência de doenças cardiovasculares e colaborar para a construção de sociedades mais saudáveis, justas e sustentáveis.
Fonte: HealthNews. Sociedades cardíacas globais exigem ação urgente contra as ameaças ambientais à saúde. Publicado em 18 jan. 2026. Disponível em: https://healthnews.pt/2026/01/18/sociedades-cardiacas-globais-exigem-acao-urgente-contra-as-ameacas-ambientais-a-saude/. Acesso em: 17 jul. 2026.