Pesquisas realizadas em Barcelona, na Espanha, chamam atenção para uma dimensão menos visível da poluição: a qualidade do ar nos ambientes onde crianças passam grande parte do dia. Estudos citados no material analisaram escolas e residências e indicam que a exposição não se limita às ruas. Em 39 escolas da cidade, pesquisadores observaram concentrações elevadas de partículas finas dentro das salas de aula, além da entrada de poluentes associados ao tráfego, como dióxido de nitrogênio e carbono negro.
Os resultados mostram que parte das partículas presentes no ambiente escolar pode ter origem em atividades cotidianas. Entre as fontes apontadas estão pó de giz, atividades ligadas ao refeitório e partículas provenientes da areia dos pátios. Ao mesmo tempo, a localização das escolas também interfere na exposição: unidades situadas no centro urbano ou próximas a vias movimentadas podem receber poluentes externos pelas janelas, evidenciando a conexão entre qualidade do ar interno, trânsito e planejamento urbano.
A preocupação se estende ao período anterior ao nascimento e aos primeiros meses de vida. Estudos vinculados à coorte INMA relacionaram o uso de gás para cozinhar durante a gestação, especialmente quando associado ao tabagismo materno, a maior ocorrência de chiado, congestão e infecções de ouvido no primeiro ano. Trabalhos mais recentes citados no documento também associaram a exposição materna à poluição a menor peso ao nascer e a episódios de chiado e infecções respiratórias em bebês.
Esse conjunto de evidências amplia a discussão sobre qualidade do ar como tema de saúde, educação e meio ambiente. Escolas e residências são espaços de permanência prolongada, e a exposição infantil precisa ser observada tanto a partir das fontes internas quanto da poluição existente no entorno. Os estudos reforçam, assim, a importância de considerar ventilação, localização urbana, fontes de combustão e políticas de redução da poluição do tráfego como componentes de uma estratégia de proteção à saúde.
Entre as medidas práticas mencionadas estão manter ambientes bem ventilados, evitar o fumo dentro das residências e ampliar a atenção à localização de escolas em relação a vias de tráfego intenso. Para gestores públicos e instituições, as pesquisas também apontam para a relevância de políticas de trânsito e qualidade do ar no entorno escolar. A experiência científica de Barcelona contribui para colocar a exposição cotidiana das crianças no centro do debate sobre prevenção, ambientes saudáveis e qualidade de vida.
FONTES CIENTÍFICAS
1. Rivas I, Viana M, Moreno T, et al. Child exposure to indoor and outdoor air pollutants in schools in Barcelona, Spain. Environment International, 2014. DOI: 10.1016/j.envint.2014.04.009
2. van Drooge BL, Rivas I, Querol X, Sunyer J, Grimalt JO. Organic Air Quality Markers of Indoor and Outdoor PM2.5 Aerosols in Primary Schools from Barcelona. International Journal of Environmental Research and Public Health, 2020. DOI: 10.3390/ijerph17103685
3. Esplugues A, Estarlich M, Sunyer J, et al. Prenatal exposure to cooking gas and respiratory health in infants (coorte INMA). Environmental Health, 2013. DOI: 10.1186/1476-069x-12-100
4. Luo Y, Rivas I, Foraster M, et al. Maternal Exposure to Air Pollution and Fetal Growth (Barcelona Life Study Cohort). Epidemiology, 2026. DOI: 10.1097/ede.0000000000002011
5. Sinsamala RM, Anguita-Ruiz A, et al. Holistic evaluation of the impact of pregnancy urban exposome on infant wheezing and chest infections. Environment International, 2025.
6. Rivas Lara I. Air quality in schools and children's exposure to particulate pollution in Barcelona. Tese de doutorado. Universitat Autònoma de Barcelona, 2015.