Uma revisão científica que reuniu estudos realizados em países africanos aponta uma relação direta entre a poluição do ar, dentro e fora das residências, e impactos graves sobre a saúde infantil. A análise identificou associação da exposição a poluentes com problemas respiratórios, nascimento de bebês com peso abaixo do ideal e aumento da mortalidade entre crianças com menos de cinco anos, reforçando a dimensão sanitária de um problema ambiental evitável.
O levantamento analisou 13 estudos publicados entre 2015 e 2025, realizados em dez países do continente. Em todos eles, os níveis de poluição observados estavam muito acima do recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Em residências onde o preparo de alimentos utiliza lenha, carvão ou outros materiais queimados, a concentração de partículas finas chegou a 177 microgramas por metro cúbico; em ruas de algumas cidades, os registros ultrapassaram 250 microgramas por metro cúbico.
Os efeitos foram especialmente relevantes entre as crianças. Gases liberados por veículos e pela queima de combustíveis foram associados à redução da capacidade pulmonar. Em Burkina Faso, cozinhar com materiais queimados triplicou as chances de infecções respiratórias agudas. Na Etiópia, o uso de lenha dobrou os sintomas respiratórios e elevou em quase três vezes o risco de baixo peso ao nascer. Em 14 países da África Subsaariana, a fumaça dentro das residências aumentou em 33% o risco de morte de crianças menores de cinco anos.
A revisão também identifica maior vulnerabilidade entre crianças pequenas, pessoas com alergias ou asma e famílias que vivem em moradias mal ventiladas. Nesse cenário, a qualidade do ar interno passa a integrar de forma direta a discussão sobre saúde, condições de moradia e sustentabilidade, especialmente em ambientes nos quais a queima de combustíveis permanece presente no cotidiano doméstico.
Entre as medidas apontadas pelos pesquisadores estão a melhoria da ventilação dos ambientes, a substituição de fogões a lenha por alternativas mais limpas e a redução da queima de combustíveis. Os autores defendem políticas públicas capazes de incentivar essas mudanças, diante de evidências que mostram que a exposição à poluição do ar continua produzindo consequências relevantes para a saúde da população, sobretudo entre os grupos mais vulneráveis.