Artigo científico reúne evidências de que ventilação insuficiente, excesso de CO₂ e exposição a partículas e compostos químicos estão associados a menor frequência escolar e piores resultados em leitura, escrita e matemática

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O ar respirado diariamente por crianças e adolescentes dentro das escolas pode exercer influência direta sobre a saúde, a concentração e o desempenho acadêmico. Um artigo científico elaborado por pesquisadores ligados à Cátedra UNESCO de Educação para a Saúde e Desenvolvimento Sustentável e à Sociedade Italiana de Medicina Ambiental, a SIMA, aponta que salas de aula lotadas, superaquecidas e mal ventiladas favorecem o acúmulo de dióxido de carbono e de outros contaminantes potencialmente prejudiciais.
Publicado em julho de 2020 na revista científica Health Promotion Perspectives, o trabalho reúne resultados de estudos realizados em diferentes países e apresenta recomendações para melhorar a qualidade do ar interno nos ambientes escolares. Os autores destacam que o problema envolve aproximadamente 64 milhões de estudantes e 4,5 milhões de professores na Europa, embora ainda seja frequentemente negligenciado nas políticas educacionais e sanitárias.
De acordo com a publicação, três fatores são fundamentais para determinar se o microclima de uma sala de aula é saudável: ventilação, temperatura e umidade. A combinação entre grande número de alunos, permanência prolongada no mesmo ambiente e baixa renovação do ar pode elevar rapidamente a concentração de dióxido de carbono, o CO₂.
O número de estudantes em uma sala está diretamente relacionado ao aumento das concentrações de CO₂, com variações que podem chegar a 25%, segundo os estudos reunidos no artigo. A respiração de uma criança entre 7 e 9 anos produz cerca de 14 litros de CO₂ por hora. Em condições de atividade física moderada, um adolescente de 15 anos pode liberar até 85 litros por hora.
O documento menciona como referência uma concentração máxima de 1.500 partes por milhão, embora determinados efeitos relacionados ao desconforto e à baixa ventilação possam ser percebidos a partir de níveis próximos de 1.000 partes por milhão, dependendo da idade e das condições individuais. Quando o ar se torna estagnado, podem surgir sintomas como dor de cabeça, náusea, fadiga, alterações de memória e dificuldade de concentração.
Poluentes internos e externos
O CO₂ não é o único elemento que merece atenção. A qualidade do ar das escolas também pode ser afetada por poluentes gerados dentro dos próprios prédios ou trazidos do ambiente externo.
Entre os contaminantes citados estão dióxido de nitrogênio, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, radônio, compostos orgânicos voláteis e materiais particulados finos, classificados como PM2,5 e PM10. Essas substâncias podem ter origem no trânsito, na queima de combustíveis fósseis, em sistemas de aquecimento, em atividades industriais, na agricultura intensiva ou em materiais utilizados na construção e na manutenção dos prédios.
Tintas, móveis, revestimentos e produtos de limpeza podem liberar compostos orgânicos voláteis, como formaldeído, tolueno e benzeno. Muitos desses compostos não são percebidos pelo cheiro, mas a exposição pode estar relacionada a tontura, dor de cabeça, irritação nos olhos, nariz e garganta, fadiga, dificuldade respiratória e déficit de atenção.
A publicação também chama a atenção para o radônio, gás natural que pode se acumular em ambientes pouco ventilados, além de substâncias químicas eventualmente presentes em materiais escolares, como chumbo, cádmio, níquel e cianoacrilato.
Outro ponto de preocupação são as partículas finas provenientes principalmente do trânsito e de outras fontes de combustão. Uma pesquisa da Comissão Europeia citada no artigo avaliou 114 escolas de ensino fundamental, envolvendo 5.575 alunos de 23 países europeus. Conforme o levantamento, aproximadamente 85% dos estudantes estavam expostos a concentrações de PM2,5 e PM10 superiores aos níveis considerados seguros pelas orientações da Organização Mundial da Saúde utilizadas naquele estudo, publicadas em 2005.
Reflexos na aprendizagem
A relação entre o ar respirado nas escolas e o aprendizado foi observada em diferentes pesquisas reunidas pelos autores.
Em um levantamento envolvendo 100 escolas dos Estados Unidos, as taxas de ventilação das salas de aula apresentaram relação direta com os resultados acadêmicos. Melhorias na qualidade do ar foram acompanhadas por progressos mensuráveis em testes padronizados de matemática e leitura. As conclusões também foram sustentadas por revisões sistemáticas e por um estudo de coorte realizado com mais de 8 mil crianças no Reino Unido.
Outra pesquisa avaliou 436 estudantes em áreas urbanas da Áustria e identificou redução do desempenho cognitivo nas salas onde foram registradas concentrações mais elevadas de CO₂ e materiais particulados.
Em 60 escolas da Escócia, níveis maiores de CO₂ foram associados a menor frequência anual e a piores resultados em testes de leitura, escrita e aritmética. A associação permaneceu mesmo após ajustes relacionados à condição socioeconômica e à quantidade de alunos por turma.
Experimentos desenvolvidos em salas de aula da Alemanha e em 51 escolas de ensino fundamental de Portugal também relacionaram o aumento do CO₂ à redução da atenção de curto prazo.
Em Barcelona, um estudo realizado com alunos de 19 escolas apontou uma evolução até 13% mais favorável em indicadores de desenvolvimento cognitivo, como atenção e capacidade de memorização, nas instituições com menores concentrações de partículas ultrafinas, partículas de carbono e dióxido de nitrogênio provenientes do trânsito.
Os dados demonstram que o ambiente físico da escola não pode ser separado do processo pedagógico. Iluminação, temperatura, umidade, ventilação e controle de poluentes também integram as condições necessárias para que crianças e adolescentes possam aprender, interagir e desenvolver suas capacidades.
Ventilação e monitoramento
Entre as principais recomendações apresentadas estão evitar a superlotação das salas e realizar a ventilação antes do início das aulas e durante os intervalos.
Os autores observam que a simples abertura parcial de janelas pode não ser suficiente para renovar o ar em todas as áreas da sala. Sempre que as condições de segurança e da edificação permitirem, a abertura simultânea de portas e janelas favorece uma troca de ar mais completa.
A frequência necessária para a renovação deve considerar o tamanho da sala, o número e a idade dos estudantes, o tempo de permanência e o tipo de atividade desenvolvida. Não existe, portanto, um único intervalo aplicável a todas as escolas.
O trabalho também recomenda a criação de protocolos permanentes de monitoramento da qualidade do ar. Entre as medidas sugeridas estão acompanhar temperatura e umidade, identificar focos de mofo, avaliar a presença de radônio e medir as concentrações de PM2,5 e PM10 com o apoio de profissionais especializados ou autoridades sanitárias.
A umidade relativa, conforme a recomendação apresentada pelo artigo, deve permanecer preferencialmente entre 45% e 55%, evitando ambientes excessivamente secos, úmidos ou superaquecidos.
Equipamentos que liberam partículas ou compostos orgânicos voláteis, como determinadas impressoras e fotocopiadoras, devem permanecer fora das salas. Carteiras, cadeiras e materiais precisam ser higienizados adequadamente, com atenção especial à remoção de poeira, umidade e mofo.
Filtragem do ar
Em escolas próximas a rodovias movimentadas, semáforos, portos, aeroportos, áreas industriais ou outras fontes relevantes de poluição, os autores recomendam considerar a instalação de sistemas de filtragem de alta eficiência integrados ao ar-condicionado ou a equipamentos de purificação.
Um dos estudos citados registrou redução entre 90% e 96% das concentrações de partículas ultrafinas, PM2,5, PM10 e partículas de carbono após a utilização de sistemas de alta eficiência. Os resultados, entretanto, dependem do correto dimensionamento dos equipamentos e da manutenção periódica dos filtros.
Outra análise mencionada no artigo estimou que a utilização de filtros para PM2,5 nas salas poderia reduzir a incidência de asma entre crianças de 16% para 13%. Também foram relatadas melhorias no desempenho escolar depois da instalação de filtros em escolas localizadas no Vale de San Fernando, na Califórnia.
Uma agenda de saúde, educação e sustentabilidade
A qualidade do ar nas escolas precisa ser compreendida como uma pauta transversal, capaz de reunir educação, saúde pública, engenharia, arquitetura, planejamento urbano, eficiência energética e sustentabilidade.
A discussão dialoga com a atuação institucional do Instituto Safeweb na promoção da educação ambiental, da responsabilidade socioambiental e de práticas sustentáveis. Ao ampliar o conhecimento sobre poluentes invisíveis presentes nos ambientes internos, a sociedade também fortalece a prevenção e a construção de espaços mais seguros.
Melhorar o ar respirado nas escolas não substitui investimentos pedagógicos, valorização dos profissionais ou políticas educacionais estruturantes. Representa, porém, uma condição básica para que estudantes e professores desenvolvam suas atividades em ambientes mais saudáveis, confortáveis e favoráveis à aprendizagem.
Garantir qualidade do ar significa cuidar simultaneamente da saúde, da educação e do futuro das novas gerações.
Importante: O artigo é uma publicação científica de perspectiva, assinada por pesquisadores vinculados à Cátedra UNESCO de Educação para a Saúde e Desenvolvimento Sustentável e à Sociedade Italiana de Medicina Ambiental. A atribuição mais precisa é, portanto, “pesquisadores ligados à Cátedra UNESCO e à SIMA”, evitando apresentar o documento como uma resolução institucional da UNESCO.
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